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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

William Beckford e Sintra
(1ª Parte)

William Beckford e Sintra (1ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 03 de Maio de 2019

    A 02 de Maio de 1844 falecia em Bath, Inglaterra, William Beckford. A importância de Beckford em Sintra não se reflecte apenas no espírito do lugar de Monserrate. Reflecte-se igualmente no espírito do Ramalhão. Ou em São Pedro de Penaferrim. Ou em Seteais. Na verdade, a importância de Beckford para Sintra ressoa em cada um de nós que por aqui anda e com a Serra se deixa maravilhar.

 

    Conhecer as suas memórias (principalmente através do Journal (referente aos anos de 1787 e 1788), o qual representa Beckford sem filtro (ao contrário dos Sketches)) é colocar debaixo da fina pele das nossas emoções um passado de Sintra que só conhecemos de olhos fechados. Regressar a essas emoções a cada ano que passa é intensificar aquilo que pensámos não ser possível. As páginas, o papel em que suas palavras sejam pela vista encontradas, é tão somente um palco onde somos deliciados com uma realidade do passado que – passando para o nosso presente – em redor de nós se torna tridimensional. É tão somente um palco de prazeres e delícias dos nossos sentidos. Se na tradução para a língua Portuguesa isso for assim sentido, vejo-me na necessidade de deixar o aviso do risco que corre quem o original Inglês leia: o risco da amplificação dos sentidos e do prazer sentido ao ser transportado para um tempo em que ainda não esteve.

William Thomas Beckford em 1782 (com cerca de 22 anos), 5 anos antes de chegar a Portugal, por Sir Joshua Reynolds. Fragmento. Quadro presente na National Portrait Gallery, Londres

Poetas e Sonhos - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 1.jpg

    É uma possibilidade que quem apenas estas minhas palavras leia, presuma que as de Beckford são apenas umas que representam normais memórias de alguém; memórias cuidadosamente escritas por se saber que serão no futuro lidas – por os seus papéis se manterem vivos depois da morte do autor. Mas para que consigamos perceber a ausência de filtro por parte de Beckford, atentemos ao aniversário de Mrs. Straits, em que ela tinha reunida toda a escória masculina e feminina da nação inglesa, com residência em Sintra, num jardim húmido, de uns quinze metros de comprimento por uns sete de largura, iluminado por vinte ou trinta sombrias lanternas. Nesse dia, com a escória toda reunida, Beckford sentia-se enfastiado com a necessidade de atender àquele ajuntamento da alta sociedade. Encontrava também pessoas em quem por norma despoletava gestos bruscos: A minha boa amiga Madame Fussock e a sua cria, que deitam a fugir quando me vêem, também lá estavam. E igualmente Mr. Burn e a sua sultana, certa velha desdentada, Mr. Connolly, de nome, e cinco ou seis outros janotas, empregados no comércio, cujos nomes me são desconhecidos. Mrs. Gildemeester, [de Seteais] toda resplandecente de diamantes, brilhava como uma estrela no meio daquela lusca atmosfera. Que reunião deplorável! Chamei-me a mim mesmo parvo dez vezes por ter vindo.

 

    E como é que a ceia na realidade foi? Para nós hoje, uma delícia literária confeccionada no passado. Melhor dito: uma delícia de uma vivência desagradada do passado, tornada uma pérola literária a qual agora observa enquanto segura estas duas partes da ostra que a guardam e que se fazem sentir como páginas do Jornal de Sintra: Tivemos uma ceia fria e fúnebre, sob uma barraca baixa, imitação de uma gruta, forrada por uma espécie dessa acastanhada tapeçaria, a que se dá o nome de point d’Hongrie, muito vulgar nos correios franceses, e de que os percevejos e as pulgas parecem gostar imenso. O bem disposto e agradável marido de Mrs. Straits colocou-me junto de Madame Gildemeester, que se divertia à farta à custa da assistência. O aspecto escuro e subterrâneo da barraca, muito mal iluminada pela pálida luz das lanternas, e o fedor dos pratos de lagostins podres, mesmo por debaixo do nosso nariz, davam-me a impressão de que estava morto e enterrado.

Ossos dos Ilícitos Ofícios - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 2 II

A Igreja de São Martinho nos anos de 1700, por Pierre Lélu. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

    William Beckford, de tal fastio e com tais estímulos, tinha a impressão de naquele encontro da alta sociedade estar morto e enterrado. É assim que o inglês se mostra nas suas memórias: sem fazer fretes, sem querer parecer bem; mostra-se-nos como o ser humano que era, sem filtros e com uma capacidade literária única, a qual nos consegue hoje encher de prazer.

 

    À tarde, meti-me na carruagem e fui a casa de Horne, onde encontrei Bezerra, cuja inquieta e desassossegada disposição breve o dispôs a acompanhar-me a casa de Mrs. Gildemeester [de Seteais] e deixar as Misses Sills com quem ele estava sentado. Esta boa senhora parecia morrer de tédio na companhia de Madame Fussock, de João António Pinto e de Bandeira, o corregedor do Paço, que estava acompanhado de seu filho, um rapazinho de olhos tortos e uma cabeça de abóbora. Eu estava persuadido de que a idiota da Fussock, assim que me visse entrar, trataria de se pôr ao fresco, mas manteve-se firme, resoluta e atenciosa. Bem depressa me enfadei com a reunião. A forma como aqui vemos este excerto da descrição da sua visita a casa de Horne apresenta-se-nos quase como um excerto de um romance; no entanto era apenas a sua perspectiva daquilo que ia encontrando e vivenciando; se para nós os cabelos, roupas e caras empoadas nos podem parecer estranhos, a forma de pensar não o deverá parecer pois é em muito semelhante ao que pensamos perante o que também nós vamos hoje vivenciando (poucas pessoas (ou nenhumas) não usarão idiota em pensamento, em relação a quem quer que assim lhe pareça).

Fragmento de quadro de Alexandre Nöel – representando a Serra de Sintra e vendo-se ao fundo o Palácio da Vila –, nos anos de 1700. Biblioteca Nacional de Portugal

Ossos dos Ilícitos Ofícios - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 3..j

    Também podemos observar e sentir ambientes que estão – tirando algumas excepções – quase completamente dissipados, e hábitos que só não são possíveis nos dias de hoje pela evolução dos materiais ter tornado impossível a satisfação da curiosidade: Ouvi missa na capela da minha casa e rezei fervorosamente a Santo António, cuja imagem, lindamente enfeitada, se encontra no altar-mor. Uma criada pôs-se a espreitar pelo buraco da fechadura a minha idólatra devoção. Nestas anotações simples se percebe muito do que fomos e somos, mesmo que essas anotações sejam desligadas de um fluxo contínuo como no caso apresentado da satisfação da criada.

    Beckford descreve-nos também cenários que conhecemos bem, muito bem, por termos o privilégio de em alguns momentos assistir aos mesmos: O tempo continua encoberto, e o negrume das nuvens, por sobre o mar, ameaça-nos com um dilúvio de chuva. Em dias de chuva é ainda possível ver o quadro que Beckford via, se quando estivermos no Ramalhão olharmos para a Barra do Tejo (não esquecendo o negro fumo que as lareiras, fogueiras e fogões deitavam no ar naqueles tempos).

Ossos dos Ilícitos Ofícios - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 4 II

A Serra de Sintra (com Monserrate no centro) nos anos de 1700, em gravura de John Wells a partir de esboço original de W. Baker

    Fiz esta manhã um trote cerrado na fragosa estrada de Rio de Mouro. Com o tempo encoberto, as charnecas do sopé da Serra de Sintra, quanto a desolação e negrura, nada ficam a dever às mais sombrias regiões da Cornualha ou do dique do Pico do Diabo. Além de nos dar perspectivas e ambientes que nos sítios por onde passou já se não é capaz de sentir por quem os conheça, dá-nos no entanto comparações inesperadas, e com sítios que foram inspiração para surgirem contadores de histórias e as suas lendas e contos; impossível não pensar que Sintra assim foi sentida por quem de forma inata já tinha esse potencial para escrever e contar (o futuro assim afigura-se menos mau pela esperança que contém). E não foi a única vez que de Rio de Mouro falou, pois já no dia anterior... Fomos até Rio de Mouro. Os espessos vapores que enevoavam a Serra, e o negro céu que descia, muito abaixo, sobre as áridas planícies, davam à paisagem um ar nórdico que me fazia lembrar a Cornualha. Julguei-me a atravessar, de novo, as charnecas das imediações de Truro, na estrada que conduz a Falmouth ou a qualquer outro desses malditos portos de embarque.

A monstruosa e altíssima Fonthill Abbey (com traços inspirados no nosso Mosteiro da Batalha) que William Thomas Beckford mandou construir (em Inglaterra) em 1796, um ano depois da sua segunda saída de Portugal, espelho da sua fantasia (e também da sua fortuna)

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    Esta foi contudo apenas uma introdução ao que de William Beckford se poderá encontrar em alguns dos próximos meses, mas devidamente contextualizado para que mais se possa sentir o lendário passado de Sintra. Para já ficaram apenas fragmentos encantatórios do homem que abandonou o mundo em Maio de 1844 e que nos deixou um passado de vívida fantasia da realidade de Sintra para nos deliciarmos.

 

* Nota: foi aqui utilizada a edição de 2009 da Biblioteca Nacional (Diário de William Beckford em Portugal e Espanha), a qual apresenta uma tradução realizada por João Gaspar Simões do original The Journal of William Beckford in Portugal & Spain, 1787-1788, este último publicado em Londres em 1954.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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