Cúmplice?

  • O Caminheiro de Sintra
  • O Caminheiro de Sintra - Blog
  • Google+ - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza
  • O Caminheiro de Sintra - Instagram

© Miguel Boim, 2017-2019.

 

2007 - 2017 

DEZ ANOS DO PSEUDÓNIMO

O CAMINHEIRO DE SINTRA

    Tudo aqui começou há mais de treze anos, escrevia eu em 23 de Julho de 2007. Encaro este como o ponto de viragem no meu conhecimento de Sintra, e consequentemente, na minha vida e na minha maneira de estar nesta, tal foi (e é) a influência que Sintra exerce em mim.

    O suporte em que o fazia naquele Verão de 2007 era num dos modelos mais simples do Blogger e, claro, tendo o verde como fundo. As minhas pretensões eram simplesmente passar para palavras algumas das minhas recordações, umas longínquas, outras mais recentes, mas sempre realçadas nas minhas emoções não fosse esta mística serra um dos grandes amores da minha vida.

    O começo do texto, “tudo aqui começou”, referia-se à imagem que era apresentada. Mas dizia mais sobre ela e sobre essa primeira metade da década de 1990: Foi no trilho que nesta estrada desemboca, que me tornei um iniciado nos caminhos da serra.

 

    Foi assim, desejando contar memórias de uma época em que a Serra de Sintra estava muito ao abandono, que O Caminheiro de Sintra surgiu como escritor. Na verdade publiquei uma pequena série de textos que acabei por retirar do blog quando fiz nesse uma mudança radical já no ano de 2010.

O surgir de O Caminheiro de Sintra na internet, no ano de 2007.

    Essas memórias eram principalmente dos dias e noites que O Caminheiro de Sintra, o Miguel Boim, tinha passado na Serra em tempos em que não existia Google Maps – ou internet sequer em Portugal, num sentido mais aproximado do que a conhecemos hoje – e o único mapa digno desse nome estava desactualizado em muitas décadas, fruto da natural erosão e da forma como a vegetação sem controlo crescera.    Eram tempos que se podiam percorrer quilómetros dentro de uma densíssima floresta e em que percorrendo um fechado trilho de vegetação em redor de nós, poderia aparecer de repente à nossa frente, uma ruína de uma antiga casa, surpresa que nos causava quase um êxtase. Era um romanticismo que alguns conheceram na Serra de Sintra por esses anos. Apesar de todos os sentimentos, todas as emoções de uma natureza selvagem, sem controlo – e escondendo então as histórias mais fantásticas da história que anos mais tarde descobriria – acabava por ter mil perigos que hoje não existem graças a entidades como a Parques de Sintra Monte da Lua, o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, a Câmara Municipal de Sintra, a Protecção Civil e os gloriosos Bombeiros, que zelam, recuperam e projectam a protecção de uma das áreas mais importantes que temos em Portugal em termos de Património Material e Imaterial.

    Mas naquele tempo, para um adolescente que crescera na Rua dos Fanqueiros tão próximo da Praça da Figueira como do vetusto Terreiro do Paço, numa casa dos anos de 1700, a Serra foi algo que não esperava encontrar. Muito provavelmente o contraste que sentiu ao ler estas palavras foi entre a cidade e a Serra, mas o tesouro que Serra se tornou para o meu coração não teve que ver com isso; antes, foi através da perda de vários dos pilares mais importantes que uma criança pode ter na vida. Como consequência, deu-se também, na entrada da adolescência, uma mudança para Queluz. Foi felizmente essa proximidade que passadas décadas me levou até aqui, onde hoje novamente me encontro.
     O impacto que a natureza da Serra teve em mim ao longo daqueles dias e noites foi o de uma mãe, que vai ensinando o seu filho ao deixá-lo aprender por si; ao superar-se no reconhecer dos medos que a noite num adolescente evoca; na fé que tem de ter no seu caminho quando o coração tem o fogo que o que os rodeiam não o possuindo, não o entendem; foi, principalmente e embora que quase paradoxalmente, o lugar, o espaço, onde me sentia seguro, longe da opressão que aterroriza ao não tocar, e amado com um maternal amor.   

A primeira publicação - em formato papel - em que 

O Caminheiro de Sintra 

surgiu.

    A adolescência foi passando e naqueles braços, feixes de verde com que a Serra me acolhia, despertou em mim a centelha da curiosidade pelos humanos de outros tempos, de outras “Serras” que por ali tinham andado. E começou a procura, muito esparsa, lenta, pela história de todo aquele ambiente selvagem.

   Chegou o impacto do início da vida adulta, e... Sintra era uma saudade que provocava um aperto no coração. Pensava para mim um dia viverei algo não semelhante, mas pelo menos com uma mesma intensidade.
   

O Caminheiro de Sintra em formato de papel, já como Miguel Boim.

   A saudade, o mistério da vida nas suas coisas mais simples, levava-me sempre para as recordações de uma vida bizarra que havia encontrado uma verde mãe, embora tivesse tido de me podar a mim próprio tal como acontece com quem mais isolado cresce e vive. E no Verão de 2007, queria escrever sobre isso, deixar isso gravado, nem que fosse da forma mais simples. Nesse 23 de Julho continuava, deixando que se notasse aquele fascínio de paixão que ainda afectava a minha escrita: Tudo o que bastou, passar este portão de madeira que na altura não existia, e sentir sob os meus pés a energia da terra que me levava caminho e serra acima. Existia um pequeno muro que ladeava uma pequena corrente de água. Muito musgoso e escorregadio, era também muito íngreme esse estreito e custoso caminho, mas o atalho que nos permitia dava já o gozo de quem ainda não conhecia o misticismo sempre aqui presente. Hoje iluminado por raios de sol, brilha tanto como a imagem que dele tenho de há tantos anos atrás.   

O museu / Centro Interactivo de Mitos e Lendas de Sintra onde Miguel Boim foi consultor de conteúdo do projecto levado a cabo pela J.W. Thompson, em concurso da Câmara Municipal de Sintra.

    Os anos foram passando, e tudo se foi dando da forma mais natural, espontânea, possível. O isolamento, o estar concentrado apenas no passado da Serra vivendo-o dentro de minha mente dia e noite, certamente que terá contribuído para toda essa espontaneidade com que no caminho e no meu caminho, me começou a perseguir. 
    Mesmo vivendo de forma mais isolada, conheci pessoas que têm um enorme amor também à Serra. Conheci pessoas que foram reconhecendo o meu trabalho e foram fazendo com que esse fosse crescendo. Não creio que o desejo de citar nomes me vai impedir de – por esquecimento momentâneo – não colocar aqui alguns. Talvez deva só relembrar algumas instituições que estiveram com o meu trabalho em momentos chave, como por exemplo a Equinócio que tanto insistiu inicialmente comigo para que eu os ajudasse nas caminhadas temáticas, coisa que só a Casa do Fauno viria a conseguir, após mil conversas e sonhos trocados. Ou a Voando em Cynthia, crucial para que eu conseguisse desenvolver ainda mais as minhas visitas. A editora Zéfiro, que em 2012 me convidou para escrever o segundo livro, e que desde o fim de 2014 originou o querido filho (Sintra Lendária) que de ano para ano percorre cada vez mais caminhos medidos por pares de olhos que lêem as suas páginas.   

As Lendas de Sintra e os Ratos de Biblioteca, projecto de Miguel Boim para os alunos do concelho de Sintra, com o apoio da Câmara Municipal de Sintra.

    Ou o Jornal de Sintra que depois de no passado ter tido colunas de Agostinho da Silva, José Pedro Machado, Francisco Costa, entre outros, me honrou com o convite para escrever regularmente. Ou os textos, artigos, que honrando-me me pedem para outras publicações. Ou a J.W. Thompson, que quis forçosamente que fosse o seu consultor de conteúdo no projecto que se ergueu no centro da Vila velha, o Centro Interactivo de Mitos e Lendas de Sintra. Ou a Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra que fez com que criasse As Lendas de Sintra e os Ratos de Biblioteca, projecto que no ano lectivo 2016-2017 foi felizmente um imenso sucesso e com o qual pude levar histórias da história a mais de 2000 alunos do concelho de Sintra.
    Por razões óbvias não continuarei com as nomeações. E sei que aqueles que... me são significativos pelas conversas da vida, pelos trabalhos em conjunto, sabem que o meu afecto por eles fica sempre expresso, marcado, na forma como me dedico aos trabalhos em conjunto.   

    O Caminheiro de Sintra quis, foi sua intenção, esconder o Miguel Boim, o adolescente que nos anos 90 se deixou enlaçar pelo amor maternal da Serra de Sintra. Daí ter surgido o pseudónimo. Felizmente, ainda muito o esconde deixando em evidência aquilo que para aqui é sempre mais importante: a história de Sintra, os seus espaços, os seus recantos, as suas memórias, com as quais queremos fundir as nossas. Tal como no final do século XIX, o eminente Theodore Fontane era conhecido como O Caminheiro de Brandenburg precisamente porque nos seus passeios dava a conhecer as lendas, a história, a paisagem, dos tempos da antiga Marca (“principado”) de Brandenburg (para manter a tradição da espontaneidade tratou a vida de me dar esta informação apenas há umas horas).

    Na vida muito se perde, muito se trabalha. Mas quando o trabalho é movido por uma fornalha imensa e tem como insígnia um longevo amor, as coisas vêm ter connosco. Tal como veio ter com Sintra através destas palavras.