Artigos do Jornal de Sintra, 2021por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra.jpg

ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2021 ~

Três Meses de Amor
(3ª Parte)

Três Meses de Amor (3ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 07 de Maio de 2021

    Por estas semanas têm sido sentidas na Serra, de madrugada, as intensas fragrâncias que marcam os ciclos do ano e mais vão marcando o ciclo da vida à medida que as vamos sentindo com diferentes e novas memórias – sempre a surgirem no correr do tempo – associadas. Nessa intensa percepção, através de um dos nossos sentidos mais marcadamente animalescos – o olfacto –, somos tocados pelas memórias vividas nos tempos em que mais fomos moldados pelas emoções (e também por aquilo que resultava do contrariar dessas). E se as primeiras ardentes paixões, a suavidade dos primeiros amores em que essas se transformavam, faziam com que nossos olhos caíssem sobre a paisagem da Serra, percorrendo-a como se um corpo de intensa amante em suas formas a vista percorresse, nestes tempos e passadas umas décadas estes mesmos olhos caem sobre esse mesmo corpo, apreciando-o na penumbra que marca, de forma leve, a silhueta do corpo da Serra contra o estelar céu. De forma leve, tal como na vida cada vez vamos tendo menos certezas, tal como na vida os traços das certezas mais se vão esbatendo, tornando-nos mais humildes, tornando-nos, de certa forma, mais bons amantes.

 

    Recordamos os caminhos que nos marcaram, quando tantas vezes – em situações como debutantes – tínhamos de nos voltar para nós mesmos. O apreciar desses caminhos e dessas paisagens era como se a Serra nos enviasse o eco daquilo que o nosso coração estava a transmitir com o nosso olhar.

Junto ao arco de Seteais, por Clémentine Brélaz, publicado no início da década de 1840. Arquivo Pessoal do Autor

Três Meses de Amor (3º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    E não somos os únicos a interpretar essa suposta compreensão da Serra para com as nossas emoções. Neste nosso tempo, muitas pessoas olham para a origem do termo Seteais como a simples divisão que podem fazer de uma palavra, apenas ao torná-la em duas: sete ais. No passado – e em especial no século XIX,  e devido a uma mais fácil corrupção das palavras – o nome Seteais era por vezes tido como Senteais. Diziam assim ser porque ali mais facilmente a Serra conseguia sentir os lamentos daqueles que em emocional dor se encontravam. E – novamente – nos dias de hoje é um local onde levamos alguém a quem queiramos encantar o coração, a quem queiramos encantar os sentires. Tal já acontece há alguns poucos séculos, e que levou a que facilmente surgissem histórias de amor relacionadas com Seteais. Aquelas mais comuns, claro, são as lendas que normalmente envolvem um cavaleiro cristão e uma princesa moura que, por qualquer razão, se viu enfeitiçada ou limitada a não dizer mais do que sete ais num determinado espaço de tempo, caso contrário acontecer-lhe-ia algo de fatídico. Evidentemente que no fim da história o fatídico acontece, caso contrário a existência do cavaleiro cristão não faria sentido. E para relembrar aquele amor impossibilitado de continuar devido a um trágico destino, o cavaleiro – ou quem soube da história – decidiu chamar àquele local Sete-Ais.

Três Meses de Amor (3º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

A vista da “moldura” do arco de Seteais para o Palácio da Pena, final do século XIX, início do século XX. Arquivo Pessoal do Autor

    Se passarmos dessa lenda para a literatura – ou direi antes: para a maravilhosa literatura que nunca envelhece – encontramos também memórias de amor em Seteais. Como daquela vez em que Carlos da Maia e o Maestro Cruges vieram para Sintra – em Os Maias. Em determinado momento saem do Hotel Nunes (que existia onde temos hoje o Hotel Tivoli, no centro da Vila de Sintra, este último vivamente celebrado aquando da sua construção nos anos 80) para um passeio e acabam por encontrar o poeta Alencar. Este, tinha maneirismos de profundo romântico; não de romântico do Norte da Europa, mas de um romantismo português, extraordinariamente afectado pela sociedade em que vivia, ao invés do sentir da natureza a engolir essa mesma sociedade. Eça, num dos momentos, descreve-o da seguinte maneira: E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa de antiquado, de artificial e de lugubre.

 

    O poeta pergunta a Carlos e ao Maestro para onde caminham eles, ao que respondem A Sitiaes. Vou Mostrar Sitiaes ao Maestro. E Alencar, entusiasmado por os ter encontrado, e apesar de já lá ter estado naquela manhã, decide ir com eles, prometendo-lhes não mais os largar naquele dia. Diz inclusivamente que aquillo é sitio muito meu, filhos! E declama uns versos que tinha há tempos feito sobre Seteais, e que “por aí” se tinha gostado:

 

Quantos luares eu lá vi!

Que doces manhãs d'abril!

E os ais que soltei alli

Não foram sete, mas mil!

 

    E até nos versos do poeta Alencar encontramos os lamentos, os ais que ali tinha dado, não sendo sete, mas sendo – também em Abril – mil.

Uma baliza em frente ao arco de Seteais, século XX. Arquivo Pessoal do Autor

Três Meses de Amor (3º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    Passados momentos, passados pouquíssimos metros do miradouro de Seteais, o Maestro encontra o Penedo da Saudade, lugar que evoca mais memórias ao poeta Alencar. Diante d'aquellas pedras crusara os braços, sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e triste. Alencar machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixão ephemera de nervoso:

 

Vieste! Cingi-te ao peito.

Em redor que noite escura!

Não tinha rendas o leito,

Nem tinha lavores na barra

Que era só a rocha dura...

Muito ao longe uma guitarra

Gemia vagos harpejos...

(Vê tu que não me esqueceu)...

E a rocha dura aqueceu

Ao calor dos nossos beijos!

Três Meses de Amor (3º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

A vista do Penedo da Saudade, por João Pedro Monteiro na década de 1840. Arquivo Pessoal do Autor

    Após alguns momentos a olhar os penedos, atirou para lá um gesto triste, e disse: foi ali. E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço branco na mão.

 

    Instantes depois, Carlos e Cruges deixando essa parte e encaminhando-se para o arco, viram o poeta agachado junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula – como quem diz, acabara de mictar junto ao arco de Seteais.

 

    Nesses tempos, o Palácio de Seteais estava com um grande ar de abandono, sem telhas em muitas das partes e com muitas de suas vidraças partidas. Não era esse traço de civilização que maravilhava ali as pessoas então, mas o romantismo da natureza que engolia, lentamente, esse mesmo traço da civilização. Já nestes tempos, também a natureza continua a engolir os traços da civilização, facto que nos obriga a moldar de forma ainda mais marcada às situações. Mas devidamente adaptados, conseguimos tirar prazer da natureza, ainda mais quando essa ecoa os nossos lamentos e no seu silêncio tem tanta História e tantas histórias em si guardadas. E para muitos, será o maravilhamento de uma primeira vez, como o foi para o Maestro Cruges nesse caminhar até Seteais: Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é sublime. - Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe faziam um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia fugindo e cantando.

 

* Transcrições com ortografia da edição de Os Maias de 1888.

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra II.jpg

 

por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra 1.jpg
Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra 3.jpg

Quero apoiar este trabalho

através do Patreon

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra 6.jpg

Quero participar numa caminhada nocturna temática

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra 2.jpg

Quero uma caminhada temática privada, apenas para mim, ou para mim e para quem for comigo

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra 4.jpg

Quero ouvir os áudios e

ler os restantes artigos sobre Sintra