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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2021 ~

Três Meses de Amor
(2ª Parte)

Três Meses de Amor (2ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 26 de Março de 2021

    Naquilo que nós somos, na forma mais instintiva como nos damos, nos hábitos que socialmente criamos e que se encontram antes da etiqueta, pouca coisa mudou nos últimos séculos. Tanto assim é, que inúmeras vezes somos surpreendidos pelo quão actual o passado pode ser. Existem, porém, coisas que nos enlaçam e enganam com a facilidade com que o seu desfecho prevemos. Se vos falasse de Josephine e Manuel – ela ainda sem ter entrado na casa dos vintes, ele com mais de quarenta, já considerado um velho em seu século XIX –, perceberiam que a natureza das suas relações passava por uma parte física, pois a diferença de idades aliada à das posses era significativa.

 

    Olhando para este caso com os olhos do tempo deles, essa percepção seria errada. Mesmo quando numa manhã ele a mandou chamar ao seu quarto. Apenas o fez, pois da janela desse se via uma vivenda em construção. Manuel perguntou a Josephine se ela queria a vivenda. Esta, não a aceitou por honra, esquecendo-se momentaneamente que a estava a negar à mesma pessoa que lhe pagava uma mesada. E assim rejeitou Josephine a Quinta do Relógio.

Os carris no piso, os cabos pelo ar: o antigo fim da linha do eléctrico da Praia das Maçãs, ao lado da Igreja de São Martinho. Arquivo do autor

Três Meses de Amor (2º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    Tendo mencionado a diferença de idades e “mesada”, poderão pensar que Josephine estava com ele a troco de dinheiro, e que ele estava com ela a troco da parte física. E, mais uma vez e aos olhos de hoje, isso é uma percepção errada. Aos olhos do tempo deles, Josephine tinha a ganhar dinheiro e bens materiais, é verdade, e Manuel ganhava, principalmente na alta sociedade, a imagem de um homem viril e com charme, por conseguir cativar para si uma rapariga muito mais nova e muito vistosa. Era uma vida desaustinada para as cortesãs que essa vida levavam, pois o impacto do novo status monetário e ambientes opulentos fazia com que vivessem num constante desequilíbrio que as atraía como o mais forte íman.

 

    Muitas pessoas, mesmo depois desta explicação, não conseguem deixar de imaginar o existir de uma relação amorosa, ou apenas de cariz sexual, dadas as circunstâncias descritas. É normal que assim seja, pois naquele tempo o pensar nisso e a preponderância para pensar nessa faceta do ser humano, ainda tão impregnada de tabu, também estava presente. E o seu espoletar nos outros através da escrita começava a fazer-se notar de forma mais intensa.

Três Meses de Amor (2º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

A Fonte dos Passarinhos, no Parque da Pena, quando ainda tinha os passarinhos dentro. Arquivo do autor

    Há bastantes anos atrás, peguei num livro o qual continha cartas de um japonês – o senhor Katisako –, datadas da primeira década de 1900, nas quais descrevia muito do que então havia visto em Portugal. Contudo, fiquei bastante desconfiado, pois todo o seu expressar era de um japonês que conhecia com demasiado detalhe quer os acontecimentos vividos em Portugal à época e passados, assim como a dinâmica desses. Quem se habitue a ler memórias de estrangeiros – principalmente do século XIX – aprende a destrinçar vários padrões comuns à literatura de viagem, assim como – quer pouco, quer aprofundado – o conhecimento com que os viajantes ficavam da nossa História e da nossa cultura. Katisako, conhecia de forma exageradamente detalhada as nossas dinâmicas. Isto, para alguém que estava apenas de passagem pelo nosso país...

 

    Outra das coisas que me surpreendeu foi o grafismo erótico de certas passagens, o que contrastava ainda mais com o comum da literatura de viagem, ainda para mais para a relação época/cultura do autor. Mas mais. O autor tinha um pensamento puramente Português para a época: ...os meus amores com a gentil viscondessa vão de vento em popa. Temos trocado doze cartas, já sei que ela vive divorciada particularmente do marido que reside no estrangeiro, e é dotada do mais fino gosto e da mais requintada elegância. Chama-se Isabel e é muito maliciosa na maneira de me trocar as voltas quando lhe solicito uma entrevista [um encontro].

O Rápido a chegar a Sintra (a sair do túnel do Monte Estefânia) no ano de 1900. Arquivo do autor

A Estação de Sintra e... (1.ª parte) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - 3.j

    Outro dos exemplos é quando falando do Rei D. Carlos, ao dizer que passa esse muito tempo em Cascais, e tocando o assunto da época balnear, frisa que... Alguma púdica que entra na  água de calçotas até aos pés, blusa afogada e coifa de gutta-percha na cabeça, é tida à conta de ratona que não percebe nem palavra do código da elegância.

 

    Em determinada parte das cartas, sabe-se que Katisako é trazido até Sintra pela Viscondessa, e percebe-se então porque ele diz que Isabel é realmente a mais encantadora das Venus peccadoras que tenho encontrado na minha peregrinação mundial. A viagem é feita de comboio, e estando sozinhos em primeira classe, logo ao atravessar do túnel da Avenida – como assim era conhecido o túnel do Rossio – Katisako diz: ...beijei-a com efusivo entusiasmo, afagando-lhe aqueles relevos sedutores das suas carnes macias e rijas, que tinham a frescura das rosas.

Três Meses de Amor (2º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

Manuel Dias Prego, da Praia das Maçãs, que terá levado a que hoje tenhamos “pregos” espalhados pelo país. Arquivo do autor

    Chegados a Sintra, o mesmo discurso é mantido: Eram nove da manhã. Corria uma aragem bastante fresca que oxigenava os pulmões vivificando o sangue. Isabel ia vermelha como uma papoila, e os seus lábios sensuais e húmidos tinham a cor rubra das peónias dos jardins de Yedo. Tomei-lhos num beijo apaixonado e quente e passando-lhe o braço em torno da cintura flexível, apertei-a com ardor premindo-lhe suavemente os seios deliciosos e as nádegas exuberantes. Katisako continua, referindo: ...tantas vezes lhe tenho beijado nos delírios dos nossos êxtases amorosos... Ou até mesmo que um beijo no joelho de Isabel foi um a propósito para ter ocasião para lhe beijar as coxas veludíneas, e esticar-lhe a liga garrida e luxuriosa, em alturas mais perigosas que os píncaros da serra... Pelo meio, Katisako vai mencionando pormenores que vai vendo em Sintra, alguns deles superficiais por a descrição de tão generalizada não permitir a ligação com nenhum outro momento do tempo ou do espaço (para comparação), outras vezes interessantes, como é o caso quando fala da Fonte dos Passarinhos, no Parque da Pena, dizendo que a mesma tinha passarinhos esculpidos em jaspe: Fomos beber um copo de água à Fonte dos Passarinhos, elegante quiosque de alvenaria e grades de ferro, em estilo árabe, ao fundo do qual jorra a água da parede, sobre umas calhas de mármore onde se vêem pousados alguns passarinhos, esculpturados em jaspe. É uma coisa grácil e delicada esta fonte, que todos os visitantes vão ver. Aí, claro, mais um “a propósito” em que bebem a água da fonte utilizando a boca um do outro como copo. De referir que os passarinhos – os de pedra – desapareceram há pelo menos quatro décadas (e seriam de mármore, a menos que tenham sido substituídos algures no século XX).

“Praia das Maçãs”, de José Malhoa, em 1918. Retrata uma parte do estabelecimento de Manuel Dias Prego. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

Três Meses de Amor (2º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    Katisako e Isabel ainda vão de eléctrico – que então se apanhava no centro da Vila de Sintra, junto à Igreja de São Martinho – até à Praia das Maçãs onde, Isabel, reclinada nos meus braços com as pernas estendidas sobre a areia, segredava-me coisas sedutoras... Mas também onde vão à casa do Prego, que a viscondessa me mostrou, [e onde estava] um homem de meia idade, baixo, corado e muito nutrido, em mangas de camisa, cara alvar e risonha de bodangueiro luzindo-lhe o olho ladro na expectativa de bons fregueses a depenar. Deu-me assim a sugestão de um urso siberiano, menos limpo porém, que os seus similares das estepes... Correspondi à saudação que me fez com o bonet sebento e, dando o braço à minha amada, aproximei-me das ribas. Esta “Casa do Prego” leva-me a acreditar que o homem que é por Katisako descrito era Manuel Dias Prego, o seu proprietário, que à época era vivo. E uma curiosidade acerca desta parte: se hoje se fala em bifanas e em “pregos”, terá este último termo surgido devido à fama do petisco que Manuel Prego fazia então na Praia das Maçãs, e que nos dias de hoje se encontra com seu nome espalhado por todo o país.

 

    Mas na verdade não foi Katisako quem escreveu tudo isto de que vos tenho falado. Não foi um japonês, mas sim Alfredo Gallis, que, como puderam ver em algumas partes, fazia uso de um erotismo que, no caso da “ida de Katisako a Sintra”, não ficava harmoniosamente integrado no sentir do texto, antes ficando com um ar postiço. Apesar da discrepância destes laivos postiços quando comparados com a escrita erótica sentida – que leva os olhos a percorrerem as frases com uma lenta paixão de outrem –, fica confirmado uma vez mais que é frequente nas memórias e textos mais leves, encontrarem-se detalhes importantes sobre Sintra, já perdidos esses no tempo.

 

    E o terceiro mês de amor virá com um sentir muito mais verdadeiro e natural.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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