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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2021 ~

Três Meses de Amor
(1ª Parte)

Três Meses de Amor (1ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 12 de Fevereiro de 2021

    No passado, durante alguns séculos, homens e mulheres que sulcavam os mares levando e trazendo memórias, corriam grande risco de vida. Não apenas pela fatalidade de Neptuno no mar e de Júpiter nos céus – ou dos dois quando a ira no seu entrelaçar duplicava –, mas também pelas embarcações assoladas pela pirataria e pelo corso. A intensidade desses ataques era tal, que quando não pereciam as vidas às mãos do banditismo atlântico, ficavam as embarcações rendilhadas pela artilharia ou, em último caso, na deriva de ausência de velas, apenas com parcas tábuas sobre o mar. Pode parecer que exagero, mas é a História quem no-lo conta.

 

    Algumas dessas pessoas conseguiam alcançar a vista da terra mãe onde haviam nascido. Das primeiras coisas que viam era a Roca de Sintra, hoje conhecida como Cabo da Roca. Olhando para a Roca de Sintra, viam atrás dessa elevando-se no ar, as montanhas da Serra de Sintra, que nos seus corações mais alegrias faziam despontar. Num dos pináculos do serpenteante corpo da Serra de Sintra, o Mosteiro da Pena (actual Palácio da Pena), ao que dirigiam as suas preces, pela sua antiga Ermida de Santa Maria (Nossa Senhora) da Pena. Davam graças a Nossa Senhora, mas o porto seguro não era ainda certo para quem tinha visto a sua embarcação estraçalhada pelo fogo do corso e da pirataria. O risco das suas embarcações à deriva serem tragadas pelos rochedos da Roca de Sintra e outros a essa adjacentes, era altíssimo. Estando a ver a terra mãe, estando com porto seguro à vista, muitas vidas houve que assim se perderam.

Retrato de José Inácio de Andrade no ano de 1815

Três Meses de Amor (1º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    Conseguir alcançar uma das praias, avistar o Rio das Maçãs desaguando no Atlântico, era algo raro. Essas mesmas praias, esses mesmos rochedos da Roca de Sintra, que sofreram a grande invasão e o grande embate do maremoto de 1755, eram ao mesmo tempo solo seguro e carrasco que aguardava ceifar suas vidas.

 

    Quantos não ansiavam ver de novo os seres humanos que amavam? Quantos não partiram carregando consigo as memórias daquilo que com esses viveram? Memórias de vidas, vidas pontilhadas por Sintra como testemunha, lembranças recordadas entre amantes no querer selar o contínuo do amor. É o que sente nas palavras de José Inácio de Andrade, numa carta escrita pela sua mão à sua esposa no ano de 1815, quando a caminho da Índia se encontrava:

 

     [na distância já] Assomava ao longe a escarpada serra de Cintra, cantada pelo insigne Camões, onde se acham variados primores da natureza enriquecida pela arte. Vales cultivados e cortados de regatos, fontes, cascatas e palácios magníficos. Imagina a sensação dolorosa que sofri com a triste lembrança do mar dilatado que tenho de sulcar, antes de tornar a beber contigo a puríssima água da Fonte dos Amores.

Três Meses de Amor (1º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

Uma das gravuras de Schioppetta, da década de 1820, vendo-se à direita a Quinta da Regaleira de Cima

    A tinta deitada no papel por José Inácio de Andrade queria fazer, aos olhos de sua esposa, às suas mãos que seguravam a carta, relembrar aqueles momentos em que ambos, na intimidade da sua convivência, tinham vivenciado inocentes sentimentos de quem ama, testemunhados pela Fonte dos Amores, a qual, na face Norte da Serra, tantos outros sentimentos e amores testemunhou.

 

    A Fonte dos Amores foi, durante muito tempo, exemplo da natureza a testemunhar laços entre amantes. Não teve associadas as lendas de que se em dia tal, à hora tal, se se fizesse tal coisa na fonte, era garantido o casamento, tal como foi crença em relação a outras fontes existentes na Serra, como a Fonte dos Noivados, na Eugaria. A Fonte dos Amores conheceu muitas pessoas que deixaram a sua marca na História, as suas memórias na escrita – com letras de uma tinta ardente, pela paixão de seu sentir –, que deixaram a Sintra de um tempo distante em que amantes viviam paixões sem rede, por a descoberta do outro ser um constante desafio, quer  na lentidão dos preceitos sociais, quer no vagaroso da comunicação de então, ou dos meios dessa. Ficaram-nos os passos dados no escuro da noite no Caminho da Fonte dos Amores, estando esse a cintilar com milhares de pirilampos que alumiavam não só o caminho, não só o coração, mas igualmente as ideias para a ficção baseada no que então se vivia. Coisa que também aconteceu quando Eça de Queirós revia infindavelmente a sua Magnum Opus, Os Maias, antes de na década de 1890 passar férias em diversos anos a poucos metros do Caminho da Fonte dos Amores, com Emília, a mulher da sua vida, que lhe deu a tão necessária estabilidade que todos em nossas vidas procuramos.

Junto da Fonte dos Amores, por Clémentine Brélaz, publicado no início da década de 1840

Três Meses de Amor (1º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

    Quando da Vila subimos para Seteais, temos à esquerda a Quinta da Regaleira. À direita temos aquilo que era a Quinta da Regaleira de Baixo (por oposição àquela que conhecemos hoje, e que era a de Cima). Se continuássemos pela Quinta da Regaleira de Baixo abaixo, chegaríamos assim ao Caminho da Fonte dos Amores. Do outro lado do Caminho da Fonte dos Amores temos hoje a Quinta dos Lobos. Mais abaixo da Quinta dos Lobos temos a Quinta da Cabeça. No século XIX a Quinta dos Lobos não tinha esse nome, pois esse pedaço de terra era também Quinta da Cabeça. Em 1820, um jovem de 21 anos vem do Porto para Lisboa para participar na revolução liberal. Este jovem acaba por se apaixonar por uma rapariga chamada Luísa. E é aqui que os contornos lendários da História voltam a ser definidos pela incerteza: há quem diga que essa paixão surgiu no Bairro Alto, outros dizem que surgiu em Sintra.

Três Meses de Amor (1º Mês) - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jornal de

Há cerca de 10 anos atrás, no Caminho da Fonte dos Amores

    Adiante no tempo, os laços entre esse jovem e Luísa estreitaram-se ao ponto do jovem ter improvisado uma peça de teatro na Quinta da Cabeça – que seria propriedade do pai de Luísa. Num apontamento lateral no manuscrito desse improviso teatral chamado Impromptu ["improviso"] de Cintra, o jovem anotou: Conservo isto, não pelo que vale, mas pela memória d'estes saudosos dias que, na companhia de amigos, passei no delicioso sítio de Cintra. Se Sintra nos marca nas gravuras do século XIX, há que dizer que a pouquíssimas linhas do fim (cerca de sete) podemos ler nessa peça: Para o teatro, vistas e et cetera / Temos cá o Schioppetta nosso amigo. Este Schioppetta foi um italiano que desenhou interessantíssimas vistas de Sintra na década de 1820, com as quais viajamos até ao passado, e nas quais é possível continuar sempre a descobrir pormenores do passado, importantes para melhor se conhecer o ontem e o hoje de Sintra.

 

    O que há de curioso em relação a este jovem e Luísa, é que ele tinha cerca de 22 anos, e ela tinha apenas 14 anos, sendo este jovem aquele que é hoje conhecido como Almeida Garrett.

 

    Em Fevereiro de cada ano tendo sempre a escrever sobre amor nestes artigos do Jornal de Sintra, dada a data que temos a meio do mês. Este ano, essa será por todos nós vivida de forma diferente. Resolvi por isso mesmo escrever sobre o amor na História de Sintra, dentro daquilo que a História nos conta, nesta transição do Inverno para a Primavera, esperando que essa transição possa por nós ser também vivida, saindo do longo Inverno que temos vivido neste último ano.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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