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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

Fuga Para a Vitória

Fuga Para a Vitória
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 05 de Abril de 2019

    Como qualquer bom indigente literário ou sedento giróvago emocional – e uma vez mais – não era este o artigo que havia escrito para este mês. No entanto, uma destas últimas manhãs marcou-me de uma maneira perante a qual não tive escape, nem mesmo se mentalmente utilizasse as mineiras artimanhas do pelejar nos túneis por baixo de acasteladas muralhas aquando das conquistas de Sancho I.


   A suave brisa do entardecer do fim do século XVIII nas copas de Sintra terá de ficar para outro mês. E tudo porque uma destas manhãs me impressionou de um modo que nem mesmo o reluzir do relâmpago na lâmina da adaga à ilharga, numa qualquer encruzilhada nocturna do nosso passado, foi capaz de obscurecer a grandiosidade do contraste entre aquilo que somos, aquilo que fomos, e aquilo que nos definiu aos olhos dos demais enquanto gente na sociedade.


   Tanto não é o status que nos define como não o são as dívidas, sendo ambos antagonistas no nosso estar para com a vida. Mas o que nos define é sim a coragem daquilo que podemos vir a ser, perante os escolhos com os quais na correnteza da vida nos vamos deparando. Mas tudo isto se resume a uma manhã de Primavera. Sim, a uma manhã de Primavera numa prisão. Naquilo que é tido como o Estabelecimento Prisional de Sintra.
 

A prisão Sintra, no actual posto dos CTT, há mais de cem anos atrás

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    No século XIX, um dos mais belos seres humanos que ficou com o seu nome gravado na nossa História – o Rei D. Pedro V, cuja esposa, que também com sua interior beleza provocou o perdurar do nome de Estefânia a toda a envolvente onde se situa hoje o Centro Cultural Olga Cadaval –, ao visitar a Cadeia da Relação do Porto (actual Centro Português de Fotografia, frente à Torre dos Clérigos) e devido à monstruosidade do espaço e das condições em que os presos viviam, proferiu: isto precisa ser completamente arrasado. D. Pedro V não se referia à libertação dos presos, por muito que essa imagem possa surgir a quem leia estas suas palavras do século XIX. O enormemente belo ser humano que estava por detrás do título de Rei, referia-se tão somente ao mal. A como o mal devia ser erradicado da face da Terra para que o ser humano não tivesse de passar por aquilo que então acabara de observar.

   E para que se possa perceber como o jogo da vida não escolhe classes, cor de pele, capacidades, status, ou qualquer outra tipologia, quem escreveu as suas palavras foi um preso que se encontrava nessa mesma cadeia e que dava pelo nome de Camilo Castelo Branco, o mesmo que na nossa História também gravou o seu nome.
 

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Ao fundo do quarteirão à direita, no actual posto dos CTT, a antiga prisão de Sintra

    Nessa minha manhã da ida ao Estabelecimento Prisional de Sintra, no levar das histórias da História de Sintra a alguns dos seus reclusos, a surpresa – devido ao preconceito de quem o não é – não foi apenas pelo interesse na História e nos hábitos e vivências dos nossos ascendentes de outros séculos; a surpresa foi também despoletada pelos trabalhos sobre as lendas de Sintra que alguns deles fizeram, e que de sensível maneira se expressou através de textos e também dos "bonecos" que se encontram em algumas das imagens. No caso, de lendas de outras culturas mas também da nossa, esta última aqui representada pelo Túmulo dos Dois Irmãos (em São Pedro de Penaferrim). Não acredito ser o único a gostar de "bonecada"; mas acredito que mesmo quem não goste não é capaz de ficar indiferente à surpresa do executado.

   O que disso se depreende? Não sei. Que a vida assim se percepciona ainda mais como um jogo de sorte ou azar? Que o destino nos guarda sensíveis – demasiadamente sensíveis – momentos de escolha? Que não escolhemos o destino que temos? Que tomamos por vezes as opções erradas e que essas se manifestam de diferentes formas, com diferentes consequências? Que o mal por vezes nos enegrece o coração de inconsciente forma? Que alguns de nós têm de nascença o mal enraizado, esse se manifestando de subtis maneiras? Talvez tudo isso junto. E muito mais. Talvez. Não o sei.
 

Gravura de preso da prisão de Sinta, executada por viajante estrangeiro, final do século XIX

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    Lembrei-me de alguns episódios relacionados com o actual posto dos CTT no centro da Vila de Sintra, onde anteriormente se encontrava a prisão. Em como a tentativa falhada de regicídio em Janeiro de 1908 levou a que os homens nessa envolvidos fossem trazidos aqui para Sintra, para esse espaço actualmente ocupado pelos CTT.

   Mas também de um motim que aí se deu, levando a que a guarda se posicionasse em frente às traseiras da Igreja de São Martinho e à entrada do posto dos CTT, com os guardas a terem de disparar indiscriminadamente por entre os espaços do gradeamento das janelas.
 

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O actual Estabelecimento Prisional de Sintra, visto no Google Earth

    Ou em como uma vendedeira viu a sua galinha desaparecer quando essa se encontrava próxima das janelas gradeadas; a guarda entrando na prisão e perscrutando as galerias, nada encontrou, exceptuando um dos presos ter chocarreiramente dito que para ele, se calhar a galinha já ia na Fervença (se é que me faço – e a ele – entender)... Somente nos dias que se seguiram os presos confessaram que tinham escondido a galinha no único sítio onde a guarda não a tinha procurado: num balde de água potável.

   Como se pode ver, é mais um espaço que por todos é tomado como óbvio para correspondência enviar ou receber, mas que mais do que as palavras nessa escritas, guarda a correspondência da História que nos chega através das vivências que ali se deram e as quais não temos capacidade de imaginar pelo bizarro e lendário que no mistério da vida se encontram ocultos.
 

Tiras desenhadas por reclusos do Estabelecimento Prisional de Sintra, recontando uma lenda do mundo, ano de 2019

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    Durante essa minha manhã não pude também deixar de me lembrar que quando era criança assisti à tentativa de homicídio de um ourives que tinha a sua oficina no patamar do andar em que vivia, em que cresci, no centro da Baixa de Lisboa. Um ex-empregado tentou matar – utilizando uma faca – o seu antigo empregador por desconsideração e maus tratos. O resultado disso – no meu fácil impressionar de criança – foram os gemidos, a luta, e as largas poças de sangue no patamar, exalando no ar o férreo odor do que a todos o corpo nos preenche. Terá tido algum dia aquele ser humano que outro tentou matar, a sua reconversão e reinserção na sociedade? A resposta é novamente não sei. Mas do que hoje vi no Estabelecimento Prisional do Linhó, surge uma centelha de esperança no mal que a todos nos é transversal.
 

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Desenho executado por reclusos do Estabelecimento Prisional de Sintra, retratando o Túmulo dos Dois Irmãos (São Pedro de Penaferrim), ano de 2019

    Além das sementes em palavras deixadas nessa manhã, existem outros traços que esperançoso me deixam, por muito inócuos que à maior parte das pessoas sejam: a biblioteca – fonte de saber – foi algo de surpreendente. Nessa encontrava-se também a secretária de Tude de Sousa, o primeiro director da Colónia Penal Agrícola de Sintra, homem que muito contribuiu para a História de Sintra através de seus escritos e a quem por vezes – através das eternas palavras pela sua ausência – recorro, até mesmo para aqui neste espaço do Jornal de Sintra fazer verter fragmentos da nossa História.

  No fim desse meu dia sobrou-me o consolo da fuga para a vitória que a todos nós é disponibilizada. A grande fuga para a vitória não é aquela que nos compra a desculpabilização ou torna inconsequentes os nossos actos. A verdadeira Fuga Para a Vitória encontra-se nas nossas mãos e na nossa mente, em todos os momentos das nossas vidas. Mas principalmente quando nos vemos cercados nos piores momentos e em que apenas connosco podemos contar. São esses dos verdadeiros momentos de fulcral importância nas nossas vidas, em que contribuir para a nossa própria evolução é o mais importante, por muito que nos custe ignorar todo o mal que por nós chama, por muito que nos custe ignorar toda a tentação que nos chamando, nos pretende com sua chama queimar. O oposto – quer nos crimes mais hediondos, quer nos gestos mais simples mas indecorosos para a nossa honra (ainda que em segredo) – apenas nos faz perceber, mais tarde ou mais cedo, que o crime não compensa.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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