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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2018 ~

Poetas e Sonhos

Poetas e Sonhos
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 31 de Agosto de 2018

    Que brisa é aquela que de longe, de outro coração, vem e nos refresca a alma? Que nevoeiro é este que de forma incerta encobre o que sonhámos e com o que continuamos a sonhar? Têm as palavras tanto poder que nos levem com uma leve brisa para longe? Que com um denso nevoeiro nos façam temer o vazio que lá se encontre? E quem as escreve, quem as produz, que fábrica tem que se dedica a industrializar atiçadores de sentimentos que se encontram na lareira do nosso peito? São os poetas quem a esse negócio infame, de falência certa, com mestria se deixam perder no desatino das suas fábricas.


  É verdade. São os poetas quem também nos faz sonhar. Mas nem todos. Talvez exista uma preponderância para melhor artesão desses atiçadores de sentimentos ser aquele que mais amargura passou, aquele cuja fatalidade encontra quando perspectiva um destino límpido e com as mais simples e amorosas coisas da vida.
 

William Thomas Beckford em 1782 (com cerca de 22 anos), 5 anos antes de chegar a Portugal, por Sir Joshua Reynolds. Fragmento. Quadro presente na National Portrait Gallery, Londres

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    Quantos destes homens deste negócio fatal do coração por Sintra passaram? Quantos pela Vila evitando o que o vento levantava dos áridos e poeirentos caminhos, pela Serra vendo os penhascos que hoje se escondem, mas nos quais se podiam sentir isolados, mais perto do tecto do mundo como se o desejo de pendurar o seu coração dentro do lustre do universo fosse o que realmente os movesse?
 

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Manuel Maria Barbosa du Bocage pela mão de Charles Legrand, gravura de 1841 (anos depois de Bocage ter falecido). Fragmento. Biblioteca Nacional de Portugal

    William Beckford tinha acabado de perder a sua mulher nos meses anteriores quando chegou a Portugal em 1787. O jovem já tinha então escrito a fantástica novela dos onze mil degraus, Vathek, gabando-se de que tal lhe tinha saído de um jorro imaginativo de três dias e duas noites. A escrita deste inglês que terá também tido como professor de piano Wolfgang Amadeus Mozart (sendo que o professor teria cerca de 14 anos e o aluno cerca de 9 anos de idade) fica mais próxima de nós quando Beckford fala nas suas memórias da sua estadia em Portugal. O seu inglês (Vathek fora escrito em francês) é delicioso ao ponto de nos deixar gulosos por mais imagens do passado, e cada regresso às suas memórias é, no reencontrar das suas palavras, a descoberta de novos detalhes.

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Bocage no leito de morte, por Charles Legrand, ano de 1841. A acompanhar a gravura um verso de Bocage: "Deos oh! Deos!... quando a Morte a luz me roube, / Ganhe num momento o que perderão annos, / Saiba morrer o que viver não soube". Biblioteca Nacional de Portugal

    Num seu regresso ao Palácio do Marquês de Marialva (em São Pedro de Penaferrim, na actual Quinta do Marquês de Valada, propriedade de D. Duarte Pio de Bragança) em inícios de Setembro, antes de chegarem à dita casa começaram na noite a ouvir, saindo da espessa mata, os sons de vozes e instrumentos de sopro. Eram os preparos que se davam para ali receberem a Rainha D. Maria I, naquela noite em que não corria aragem, naquela noite em que nem as chamas das velas junto das fontes sequer se agitavam.

Luís Vaz de Camões por William Blake (poeta e pintor inglês) no início dos anos de 1800. Impressão que esteve presente na City of Manchester Art Gallery no ano de 2012

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    Passados dias, nesse mesmo Setembro de 1787, Beckford visitara a Penha Verde conhecendo a história do Grande Dom João de Castro. E novamente foi até à quinta onde hoje vive D. Duarte Pio de Bragança. Nessa noite em que a Rainha D. Maria I foi ali recebida, no seu chegar, sentou-se “defronte da janela de grades, detrás da qual eu estava”. Beckford, pelo seu estatuto, já deveria ter sido apresentado pelo embaixador inglês, Robert Walpole. No entanto o embaixador inglês estava a receber pressões por parte do seu Reino e dos ingleses aqui residentes, para que não apresentasse William Beckford à Rainha de Portugal, devido a escândalos de que se falavam na Grande Ilha. Beckford assistiu assim à chegada da Rainha de Portugal, atrás de uma janela gradeada, irónica metáfora da sua própria condição de ostracizado.

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A monstruosa e altíssima Fonthill Abbey (com traços inspirados no nosso Mosteiro da Batalha) que William Thomas Beckford mandou construir (em Inglaterra) em 1796, um ano depois da sua segunda saída de Portugal, espelho da sua fantasia (e também da sua fortuna)

    A vez seguinte que Beckford volta a colocar a sua entrada no seu diário, é saindo de Sintra em direcção a Lisboa, na sua carruagem. Nesse mesmo dia Beckford encontra um “pálido, flexível e singular, jovem (...) o mais esquisito mas talvez também, a mais genuína criatura poética por Deus criada.” Esta criatura começa a recitar um poema de um adorado poeta seu: “A fermosura desta fresca serra / E a sombra dos verdes castanheiros / O manso caminhar destes ribeiros, / Donde toda a tristeza se desterra: / O rouco som do mar, / A estranha terra, / O esconder do Sol pelos outeiros, / O recolher dos gados derradeiros, / Das nuvens pelo ar a branda guerra...” e o poema continuava. Tinha este poema sido escrito (então) há pouco mais de duzentos anos atrás pelo grande Luís Vaz de Camões, e era lido por aquele jovem pálido e esquisito, que tinha feito 22 anos há poucos dias, e que que ficou para a história com o nome de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Bocage, essa estranha criatura que nos é descrita por Beckford, lia a este último um poema que para si era de um dos maiores génios que existira.

Jorge Telles de Menezes, poeta sintrense a quem dedico este trigésimo artigo, na Igreja de Santa Maria no ano de 2015

    Mas... A fermosura desta fresca serra / E a sombra dos verdes castanheiros / O manso caminhar destes ribeiros, / Donde toda a tristeza se desterra... fala sobre a Serra de Sintra? Honestamente não o posso garantir. Sei que fala da dor do coração de alguém pela ausência de quem ama, que é agudizada por toda a beleza que na natureza encontra (principalmente quem está, ou vive, apaixonado). É impossível, pelo menos para mim, dizer que aqueles versos tão belos, recitados por Bocage a Beckford, escritos por Camões para nós há mais de 400 anos atrás, não me fazem sonhar, não me fazem imaginar naquelas incríveis conjugações de palavras pela sua beleza, a Serra de Sintra no seu passado.

    Nos dias de hoje o uso das palavras tem muita da sua capacidade perdida pela pressão do tempo, pela pressão de prazos, pela pressão da modernidade, pela pressão da perda de princípios e honra, mas ainda há quem nos faça sonhar. A palavra escrita é também para isso, para nos fazer sonhar. Para que possamos ver em algumas noites de nossa vida, lendo, os mais belos cometas a atravessarem os céus da nossa imaginação, cenário pintado pelo coração e arte de quem escreveu o que lendo, tal nos provoca.

    E como pôde ver através de alguns exemplos neste pequeno artigo, com muito ou pouco estatuto, os poetas, os escritores que nos fazem sonhar, são muitas vezes ostracizados, amordaçados, injustiçados, continuando no entanto a fazer-nos sonhar. E só se vive se se sonhar.

    Dedico este trigésimo artigo ao poeta sintrense Jorge Telles de Menezes.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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