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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

Ossos dos Ilícitos Ofícios

Ossos dos Ilícitos Ofícios
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 24 de Novembro de 2017

    Podemos interpretar este título de forma literal, ou podemos interpretá-lo de forma figurativa. Ou então podemos fazê-lo usando a área cinzenta – aquela da qual todas as pessoas se afastam em qualquer assunto na vida, por necessidade de assumirem uma máscara definitiva e decisiva perante alguém. Essa área cinzenta deverá ser aquela com a qual deveremos interpretar este título.

    Se tal lhe parece estranho, pode também parecê-lo o que de seguida irei mencionar.

A Quinta da Penha Verde nos anos de 1700, por Pierre Lélu. Rijksmuseum, Amsterdão

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    Quando lemos alguma memória de alguém, e quando a lemos tendo sido escrita já há séculos atrás e referindo-se a algo que é o nosso objecto de estudo, temos por hábito confiar – quase – cegamente no que foi escrito. Mas isso não é o mais importante para o que lhe quero transmitir, embora com isso esteja relacionado. O que temos por hábito fazer é ignorar por completo a história de vida do nome com o qual essas memórias nos chegam associadas. Ou seja, inicialmente, quando pegamos numa dessas memórias para ler, nós não fazemos ideia de onde o seu autor cresceu, de como se deixou enamorar, das esferas de chumbo ou de pedra que lhe zuniram próximo da cabeça quando em situação de combate; nós não sabemos praticamente nada do ser humano que – com uma imensa sorte para nós – um dia decidiu escrever aquilo que nos preenche acerca de um lugar ou pessoa que estudamos, ou de algo ou alguém que vindo do passado amamos.

    Em alguns dos casos é até praticamente impossível sabermos o que quer que seja acerca dessas pessoas, desses autores. De outras dessas pessoas, conseguimos saber algumas pequenas coisas. E de outras ainda, algumas dessas pequenas coisas são bizarrias, curiosidades, que por alguém as ter vivido e não fazerem parte de uma história ficcionada, nos deslumbram com o facto de – no presente ou no passado – terem existido pessoas que coisas assim viveram.

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A Igreja de São Martinho nos anos de 1700, por Pierre Lélu. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

    Tivemos um dia na Serra de Sintra, num dia do passado, do passado dos anos de 1700, um indivíduo estrangeiro que cá chegou. Deixou-nos nas suas memórias alguns traços daquilo que viu na Serra. Este indivíduo estrangeiro publicou as suas memórias passados alguns anos de por cá ter andado. Publicou-as em Amesterdão, em língua francesa.

    A verdade é muito mais complexa do que aquilo que perante os nossos olhos encontramos quando nos deparamos com algo pela primeira vez, o mesmo se passando em relação a essas memórias: esse indivíduo estrangeiro publicou-as como sendo um anónimo. Mas – atenção – as memórias que então eram publicadas, não eram do anónimo que as mandava publicar em Amesterdão: elas supostamente – “supostamente” – tinham sido encontradas numa carruagem, tendo supostamente – “supostamente” – sido escritas por um outro anónimo. O anónimo que as tinha encontrado, julgara-as tão interessantes que decidira, por iniciativa própria e a suas custas, publicá-las. Extremamente manhoso, não? Mas isto não é nada quando comparado com a vida que teve.

A meia altura e encostada à margem direita encontra-se a casa da Quinta da Penha Verde. Fragmento de quadro de Alexandre Nöel, ainda nos anos de 1700. Biblioteca Nacional de Portugal

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    É difícil – muito difícil – conseguir detalhar-se o seu percurso de vida, mas andando para trás no tempo, a caminho do seu nascimento – ao invés de falar somente das coisas que conseguiu na idade adulta e até sua morte – conseguimos encontrar alguns pormenores verdadeiramente atraentes. Aqui e ali vamos tendo alguns lampejos. Uma das coisas mais interessantes com a qual me deparei foram uma série de processos – “processos” e não “sessões” – relacionados com um caso. Esse caso mostra-nos como era a família no seio da qual o nosso estrangeiro cresceu. Ele era apenas mais um da família. Quando refiro apenas mais um, digo-o em termos daquilo que o registo de actuar demonstrava na família ser.

    Certa vez, em inícios dos anos de 1700, um David que era familiar próximo do nosso visitante estrangeiro, trabalhando como agente de um embaixador francês na Suíça, decidiu dar uma lição ao governador corrupto da comuna suíça de Coira, do qual se dizia ter desviado fundos sem fim. David recordou-se que tinha um parente seu (o registo refere irmão, mas poderia ser sobrinho) a estudar em Genebra, precisamente onde o governador corrupto de Coira tinha o seu filho também a estudar. David envia então duas cartas: uma para entidades francesas, outra para o seu parente que estudava em Genebra. Passados alguns dias, o seu parente de Genebra convida o filho do governador suíço para irem dar um passeio junto à fronteira.

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A Serra de Sintra (com Monserrate no centro) nos anos de 1700, em gravura de John Wells a partir de esboço original de W. Baker

    Quando “por acaso” o parente de David faz com que passem a linha da fronteira, pisando assim o território de França, aparecem num determinado ponto e “por mero acaso”, soldados franceses que levam o filho do governador corrupto para uma prisão francesa. David fê-lo para que assim pudesse chantagear o governador. Este foi o registo, o tipo de esquemas, do qual o nosso visitante estrangeiro anónimo viveu rodeado. E já agora e também por curiosidade: de uma outra vez o seu parente David organizou uma cilada junto a umas termas suíças, em que o alvo da sua emboscada foi surpreendido com dois bandidos que saíram de uns arbustos, lhe derrubaram o chapéu, arrancaram a peruca e lhe começaram a socar a cabeça. A vítima – segundo relato da própria à Câmara dos Lordes, em Inglaterra – salvou-se apenas por se ter atirado pelo precipício abaixo, conseguindo miraculosamente escapar incólume. Este foi o ambiente em que o nosso visitante estrangeiro anónimo cresceu e viveu. Adicionando a este tipo de registo o facto de ter publicado as suas memórias como um anónimo que tinha encontrado umas memórias anónimas, certamente conseguirá fazê-lo começar a sentir o tipo de bizarria dos anos de 1700 da qual falo.

O arco da Quinta da Penha Verde, na estrada que liga a Vila de Sintra a Monserrate. Ano de 1866

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    Mas se dele conto algumas histórias relacionadas com Sintra no livro Sintra Lendária – Histórias e Lendas do Monte da Lua, hoje decidi evocar uma em concreto, que até poderei desmultiplicá-la futuramente. No já longínquo ano de 1724, saía num jornal francês a seguinte notícia sobre o nosso anónimo: M. Merveilleux, Historien Naturaliste, qui étoit allé par ordre du Roi de Portugal, examiner les curiositez naturelles de la Montagne de Sintra (...) Il s’est rendus depuis dans un Château qui appartient à Dom Pierre de Saldanha de Albuquerque pour examiner le Squelette d’une femme d’une grandeur extraordinaire qu’on conserve dans ce Château depuis très long-temps.

    Na realidade esta notícia era o eco do que cá se dizia, a tradução de uma outra que nesse ano de 1724 tinha sido cá em Portugal publicada. A portuguesa era mais concisa: ...e observou ser de mulher um osso de extraordinária grandeza, que se guarda na quinta que foi do grande D. João de Castro e é ao presente de Pedro de Saldanha Albuquerque... Esta quinta era a Quinta da Penha Verde, e esta notícia fez com que se fosse dizendo depois, ao longo desses anos de 1700, que na Quinta da Penha Verde existia o osso de um gigante, e que segundo M. Mérveilleux, era de uma mulher gigante.

    Como pode ver, o Monsieur Merveilleux contribuiu de profunda forma não só para as memórias da história de Portugal e da história de Sintra, como para o imaginário que estas paisagens e este ambiente da Serra em nós desperta. E sobre gigantes e a Serra, mais há no futuro para contar, recontando memórias de séculos ainda mais distantes.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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