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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

Os Directores Espirituais do Convento da Trindade

Os Directores Espirituais do Convento da Trindade
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 22 de Dezembro de 2017

    ...é-me Vossa Paternidade por cá muito necessário, para coisas que não são para papel (sobrenaturais). Lembre-se muito de me encomendar a Nosso Senhor, que de cada vez me sinto mais obrigado a este Senhor. Ele guarde a Vossa Paternidade. Desta maneira – e de um dos sombrios vales aqui de São Pedro próximos – terminava Frei António da Conceição esta sua carta nos anos de 1600, para Coimbra enviada. A carta chegaria dias depois às mãos de um catedrático de Coimbra – também da Ordem da Santíssima Trindade –, conhecido como Frei Luís Poinsot.

Fragmento de desenho do Palácio da Vila no início dos anos de 1500 – por Duarte d’Armas –, vendo-se as grandes chaminés, as quais se acredita serem do tempo do Rei D. João I. Torre do Tombo

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    Frei Luís era Mestre de Espírito de Frei António, sendo essa expressão hoje equivalente a Director Espiritual. O discípulo – se assim não for ousadia usar tal termo – pediu várias vezes a Frei Luís Poinsot que abandonasse Coimbra para vir para o Convento da Santíssima Trindade da Serra de Sintra, tendo uma delas sido numa carta escrita aqui do Convento, na véspera do Natal de 1641. Esta ambição de proximidade era – e é – uma das bases para se ser Director Espiritual, para se ter um Director Espiritual: mais do que a amizade, o entendimento do ser humano com espírito desnudo que à frente se tem, para melhor se aconselhar nas matérias espirituais.

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Cá em baixo com janela rendilhada, a Igreja do Palácio da Vila, por onde Frei João de Lisboa e Frei João de Évora terão passado. Do outro lado do monte que tem no topo o Castelo dos Mouros, encontrava-se o Convento da Santíssima Trindade da Serra de Sintra, de onde Frei João de Évora e Frei João de Lisboa foram tirados. Fragmento de desenho do Palácio da Vila no início dos anos de 1500, por Duarte d’Armas. Torre do Tombo

    E que questões espirituais eram essas? As de Frei António em 1643 passavam por dúvidas que tinha em relação a certos acontecimentos que tinha vivido havia pouco: O que me deu a primeira vez foi um acidente, que não havia se não acabar a vida de um aperto do coração, e com um frio que durou muitas horas, e depois uma febre muito grande que me arrebentou a boca, [e] as urinas como água ruça; mas as ânsias nisto não há com que as comparar, e as dores, se não com as maiores que se podem imaginar. Depois disto me foi isto continuando sempre de contínuo: passados seis dias logo veio outro cada vez mais forte, passados quatro, outro, e Quarta-feira passada tive um, em que inquietei o Convento com gritos e os braços levantados, para ter algum refrigério... (...) ...O que eu entendo nisto é que isto são coisas muito grandes, e que quer Deus purificar a alma que isto tem, para lhe imprimir coisas muito grandes; pelo que eu assim o entendo.

Venera dos anos de 1700 tendo em cima a representação da Santíssima Trindade e mostrando no centro um anjo – com a cruz da Ordem da Santíssima Trindade – a libertar dois cativos (propósito último da Ordem da Santíssima Trindade)

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    A vida de Frei António teve bastantes episódios ditos sobrenaturais, alguns envolvendo o Diabo, e um deles envolvendo uma luta com esse na Igreja deste vale sombrio aqui da Trindade da Serra de Sintra. Mas para o que hoje importa é a referência a sobrenatural. Hoje em dia o termo tem por detrás um conceito hiperbólico e garrido; na realidade, as coisas sobrenaturais podem passar por uma simplicidade muito grande – sendo que simplicidade varia consoante o entendimento que da vida se tem. No caso de Frei António, relacionam-se essas coisas sobrenaturais com as coisas espirituais, e para as quais é necessário um Director Espiritual. Quem pode ter um Director Espiritual? Quem seja baptizado e se encontre preparado para o ter. Mas, acima de tudo, vem algo com isso para o qual é necessário possuir uma maturidade e consciencialização maiores. É necessário ter maturidade para se sentir que um Director Espiritual é necessário no viver. O Director Espiritual não substituía nada nem ninguém, nem tampouco se poderia considerar como um grau elevado numa hierarquia (embora fosse necessário ser sacerdote); um Director Espiritual ajudava – ou ajuda, pode ajudar – a discernir com maior clareza aquilo que Deus pretendia de alguém. No fundo – da mais superficial das formas dentro do espaço aqui disponível – era alguém que ajudava a ligar o nosso espírito a Deus, que nos ajudava a compreender melhor o que Deus pretendia de nós, e que nos ajudava a – no cinzento dos dias – distinguir a claridade da obscuridade. Uma das coisas que tudo isto demonstra é precisamente o facto de Frei António ter tido Frei Luís como Director Espiritual, e Frei António ter sido, ao mesmo tempo, Director Espiritual de várias pessoas.

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Uma vista da actual Calçada de São Pedro no final da década de 1820, por Domingos Schioppetta. Do outro lado do monte que se eleva do lado esquerdo da carruagem, situava-se o vale que tinha o Convento da Santíssima Trindade da Serra de Sintra

    Mas a Trindade da Serra de Sintra teve outros seres humanos que foram considerados como Directores Espirituais. Dois deles tinham abandonado as edificações religiosas em que viviam, para virem viver aqui numas covas de um vale sombrio da Serra. Mas isto, note-se, no final dos anos de 1300. Eles fugiram de Lisboa pois queriam afastar-se da agitação da cidade medieval. Contudo, enquanto aqui, no vale hoje conhecido como o da Trindade, viviam como eremitas – não no sentido mais extremo do termo –, o Rei D. João I mandou que começassem as obras no Palácio da Vila, que o levaram então a ter uma configuração mais aproximada daquilo que hoje vemos no Centro Histórico. Ao conhecer e lidar com Frei João de Évora, o Rei D. João I quis que aquele eremita se tornasse seu confessor. A Rainha D. Filipa, esposa de D. João I, ao conhecer Frei João de Lisboa – outro dos eremitas deste sombrio vale, quis que esse fosse seu confessor. Deste modo, aqueles dois que tinham abandonado a agitada vida na medieval cidade de Lisboa, tiveram de viver a agitada corte pelo Reino fora.

Fragmento de gravura de Domingos Schioppetta, do final da década de 1820. No topo dos cumes vêem-se o Castelo dos Mouros e o Mosteiro da Pena. Entre os dois, um vale que tinha a meio o Convento da Trindade da Serra de Sintra

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    Confessor não é, nos dias de hoje, a mesma coisa que Director Espiritual; no entanto este último conceito não estava desenvolvido como o veio a ser depois do século XVI, e pode assim dizer-se – como as crónicas religiosas de séculos passados o dizem – que aqueles dois confessores eram os Directores Espirituais do Rei D. João I e da Rainha D. Filipa de Lancaster. Pessoalmente, não deixa de me fascinar a imagem de como espiritualmente bem guiados – como o Rei já assim o deixa transparecer em seus escritos –, D. João I e D. Filipa criaram a Ínclita Geração, e o Rei contribuiu com os vários monumentos da Serra de Sintra que 600 anos depois se mantêm de pé.   

     Como se pôde ver, este sombrio vale aqui ao pé de São Pedro, o vale da Trindade, abrigou seres humanos que – sendo guiados ou sendo Directores Espirituais – deixaram as marcas que continuam tanto a encher o nosso peito, como a glorificar através da beleza, tanto a história de Portugal como a história da Serra de Sintra.

     E podemos ver também, a liberdade, a flexibilidade mental e de coração, que é necessária a um Director Espiritual, quando pegamos no caso de Frei António da Conceição: Frei António teve como Director Espiritual Frei Luís Poinsot, tendo este último tido, quando noviço, quando entrou para a Ordem da Santíssima Trindade, como Mestre... Frei António da Conceição.

     Como diziam os religiosos do sombrio vale quando Frei António se aproximava: Calemo-nos, recolhamo-nos, que vem lá o Padre Frei António da Conceição...

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