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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

O Primeiro Príncipe
de Portugal

O Primeiro Príncipe de Portugal
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 29 de Setembro de 2017

    Poderia estar a aludir a D. Afonso Henriques, ou a Viriato, ou a Vímara Peres, visto o conceito príncipe ser mutável consoante o uso que desse termo se faça. E não, não existe apenas o príncipe encantado como variação do conceito do termo príncipe. Na realidade – e voltando às primeiras linhas deste parágrafo – hoje irei falar da importância do primeiro príncipe que o Reino de Portugal teve, precisamente porque é importante para Sintra. E, de forma inevitável, terei de abordar os conceitos do termo que o poderiam ter levado a perguntar-se pelos nomes que inicialmente enunciei.

    Nos dias que correm, príncipe é tomado pela maior parte das pessoas – e quando não de forma romanceada ou imaginária – como um filho de um rei. Poderíamos dizer que o filho mais velho do Rei D. Afonso Henriques, no fim da década de 1150 por exemplo, D. Sancho, era o Príncipe do Reino de Portugal. Mas não. D. Sancho, o filho mais velho do Rei, tinha o título de infante. E assim doravante se usou do termo para aludir ao filho mais velho do rei, tal como a seus irmãos e irmãs, os infantes e as infantas.

O primeiro Príncipe de Portugal (nascido e fenecido em Sintra), representado já como cavaleiro e Rei D. Afonso V. Iluminura dos anos de 1400, presente no manuscrito Armorial de l’Europe et de la Toison d’Or, da Bibliothèque Nationale de France

Primeiro Príncipe de Portugal - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 1

    No início da década de 1430, o filho mais velho do Rei D. João I, o Infante D. Duarte, teve, com sua mulher, D. Leonor de Aragão, um filho ao qual deu o nome de Afonso. Este D. Afonso nasceu no Paço Real de Sintra (hoje conhecido também por Palácio da Vila). D. Afonso nasceu na Sala das Colunas, num Paço que era então sobrevoado por muitos mais falcões do que aqueles que hoje em dia podemos ver e em seus gritos nos ares ouvir (para quem esteja atento, claro). Cerca de um ano depois de seu neto ter nascido, a vida abandona o corpo de 76 Primaveras do Rei D. João I; o seu filho mais velho, D. Duarte, pai do D. Afonso nascido em Sintra, torna-se assim em D. Duarte I, Rei de Portugal.

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“Le Roy de France”: representação coeva do Rei de França presente no mesmo manuscrito, Armorial de l’Europe et de la Toison d’Or, da Bibliothèque Nationale de France

    As cerimónias tanto fúnebres como de aclamação sucederam-se dando lugar a outras. Nesse rol de outras, vemos – semanas depois da aclamação – o Rei D. Duarte a ir até ao Paço Real de Belas para que os mais poderosos nobres de então estabelecessem um compromisso de coração com o novo Rei. Do Paço Real de Belas D. Duarte parte para o Paço Real de Sintra, onde seu filho, o Infante D. Afonso, tinha nascido cerca de ano e meio antes. O acontecimento que então aí no Paço Real de Sintra se daria, marcaria a diferença entre o que estava para trás – muito além do nascimento do Infante D. Afonso –, e estabeleceria um futuro com um novo termo. Se a cerimónia se tiver dado como a do reinado seguinte, dentro do Paço Real de Sintra o Infante Afonso terá, ao colo de sua ama, visto a espada real erguer-se diante de si; depois os irmãos do Rei D. Duarte, os tios D. Pedro das Sete Partidas e D. Henrique, enquanto tutores de D. Afonso terão um em frente do outro dado as mãos e prometido entre si “não obedecer nem receber como a Rei a nenhum outro”, no futuro porvir, no futuro que já não contemplasse a existência de vida em corpo do pai, o Rei D. Duarte. Por fim terão beijado a mão da criança. Terá sido desta maneira que D. Afonso, Infante nascido em Sintra, foi investido com o título de Príncipe. Foi este o primeiro Príncipe que o Reino de Portugal teve, este nascido e investido em Sintra.

Representação da Sala das Colunas no Paço Real de Sintra (Palácio da Vila), onde nasceu e morreu o primeiro Príncipe de Portugal. Desenho da Rainha D. Amélia presente no livro Paço de Cintra, do Conde de Sabugosa

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    Ao longo dos anos tem sido repetido que foi devido à influência inglesa de D. Filipa, mãe do Rei D. Duarte, que esse decidiu investir o seu filho como Príncipe. Essa repetição do que é dito, além de ser a replicação que os portugueses constantemente fazem da julgada incapacidade de pensar por si, teve a sua origem numa publicação do século XVIII que assim o diz. No entanto, em alguns dos reinos da Península Ibérica o título de príncipe para o filho mais velho do rei era já utilizado no século anterior àquele que fez florescer em Sintra o primeiro Príncipe do Reino de Portugal.

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Representação do Paço Real de Sintra com a estrutura que teve até ao início da década de 1910. Desenho da Rainha D. Amélia presente no livro Paço de Cintra, do Conde de Sabugosa

    Mas existe mais para dizer em relação a essa tal influência direccionada apenas num sentido, utilizada para nos alavancarmos no sucesso dos outros ou na forma como esse é, aos dias de hoje, visto. O Rei D. Duarte deixou-nos das maiores riquezas que podemos encontrar na nossa história. Deixou-nos as suas palavras ao longo de várias centenas de páginas. Numa das partes mais importantes dos seus escritos – mais importante porque trata do relacionamento entre os homens – D. Duarte I utiliza o termo príncipe aludindo à forma original desse termo, a qual na sua etimologia encontramos no senado romano representando aquele que ocupa, que toma para si, o lugar primo, o primeiro lugar, e que é responsável por todos os outros. Tal como Maquiavel também o utilizaria, o príncipe é todo aquele que tem de gerir os seus súbditos e o seu território fazendo uso da Virtude e da Prudência em Especial, nome exacto de capítulo que o Rei D. Duarte dedica nos anos de 1430 ao comportamento que o primeiro entre os demais deverá ter na sua regência.

Afonso von Gottes gnaden kung zu portergall umd zalgarbe herr zue Sept und allgogiro (“Afonso pela Graça de Deus Rei de Portugal e Algarve, senhor de Ceuta e Alcácer”) : desenho representando o Rei D. Afonso V – primeiro Príncipe de Portugal –, presente no diário de Jörg von Ehingen (anos de 1400) pertença da Württembergische Landesbibliothek (Estugarda, Alemanha)

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    Era normal alguns reinos na velha Europa terem os herdeiros dos seus tronos como “príncipe” de um reino, de um ducado ou de um principado, título nobiliárquico que aparentava mais uma vertente de regência da preparação para suceder no ceptro real. Em Castela, por exemplo, no final dos anos de 1300 o herdeiro do trono recebia o título de Príncipe das Astúrias, terra ainda hoje em dia conhecida como Principado das Astúrias, terra de uma incrível e inóspita beleza. No Reino de Portugal somente a partir de 1640 o Príncipe passou a ser conhecido como Príncipe do Brasil e, curiosamente, o segundo Príncipe do Brasil que tivemos morreu aprisionado no Palácio da Vila, chegava o Outubro de 1683 – sim, refiro-me a D. Afonso VI, Rei de Portugal.

 

    Se o primeiro Príncipe de Portugal que tivemos nasceu e foi investido em Sintra, também ele aqui morreu, já com o título de Rei D. Afonso V, na mesma sala que o vira nascer. Os anos de 1400 continuam e continuarão sempre a fazer brilhar esta Serra e esta Vila no coração da História, como aqui no caso do primeiro Príncipe que a História de Portugal para si guardou.

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