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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

O Amante Mais Rico

O Amante Mais Rico
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 27 de Setembro de 2019

    Pessoalmente, causa-me impressão a forma como andamos desencontrados, desfasados uns dos outros. Claro que muitas pessoas poderão perguntar-se como assim pode ser se, tirando uma ou outra nuance de personalidade, as coisas são tão simples. Certamente que essas pessoas sempre procuraram a conformidade da vida e não a exuberância do amor. Em qualquer tipo de amor. Mas, aqui e para o que interessa, a exuberância no amor a que nos dias de hoje muitos chamam de amor romântico.

 

    Se olharmos para os dias de hoje (normalmente escrevo frases semelhantes a esta evocando o passado, mas esta refere-se mesmo ao presente) com toda a informação que temos, percebemos que existe exuberância e existe excentricidade. E, se olharmos para alguns dos dias do passado (agora sim, já o habitual) percorreremos fronteiras longínquas da excentricidade (fronteiras, as quais ficam nas antípodas daquelas que separam a excentricidade com a normalidade). Caso esteja a relacionar excentricidade com algum tipo de fetiche, é normal que assim pense. Mas não é o caso. Excentricidade social. Aquela que faz com que surjam vários caminhos que fogem do socialmente aceite e assumam formas bizarras... As quais, se tocarem as pessoas certas e num determinado volume, fá-las serem socialmente aceites.

Figuras na Penha Verde nos anos de 1700, por Pierre Lélu. Rijksmuseum, Amsterdão

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    Nos anos de 1700 e principalmente em Itália (“principalmente” apenas, não exclusivamente em Itália) existia a figura – e presença – do cicisbeo, o qual acompanhava certo tipo de senhoras. O Marquês de Boissy, segundo marido de uma senhora chamada Teresa Guiccioli (mais conhecida pelo seu título: Condessa Guiccioli) gabava-se da sua mulher ter tido George Byron (o “nosso” Lord Byron) como seu cicisbeo. Numa carta escrita em Ravena (Itália) em Março de 1821, Byron refere que irá pedir a James Holmes (um hábil pintor de miniaturas inglês da época) que vá até Ravena naquela Primavera para pintar o retrato da Condessa G. Nessa carta traça traços do perfil de G.: Madame G. é também muito bonita (...) completamente loira e bela – muito incomum em Itália; não uma beleza inglesa mas mais uma beleza sueca ou norueguesa. A sua figura, em especial o peito, é invulgarmente bom. Mas há mais acerca deste relacionamento: Byron rabiscou na última página de um exemplar do livro Corinne algumas palavras que podem causar surpresa. Minha querida Teresa, li este livro no teu jardim; meu amor, estavas ausente, de outra forma não o teria lido. É um dos teus livros favoritos e a autora é uma amiga minha. Não entenderás estas palavras em inglês, nem outros as compreenderão – essa sendo a razão de não as ter escrito em italiano. Mas reconhecerás a letra daquele que apaixonadamente te amou, e adivinharás que, com um livro que era teu, aquele só conseguia pensar em amor. (...) ...e há dois fora de um convento. Desejaria, com todo o meu coração, que te tivesses lá mantido – ou que, pelo menos, eu nunca te tivesse conhecido na tua condição de casada. Mas agora é tarde demais. Eu amo-te e tu amas-me – ou, pelo menos, tu assim o dizes, tu assim ages, o que no fim é uma consolação.

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Senhores, senhoras e oficiais, junto ao muro da Quinta da Regaleira. O sítio onde se encontram os sentados, é onde hoje se situa a entrada Este (“entrada de baixo”) da Quinta da Regaleira. Final da década de 1820, por Domingos Schioppetta

    Agora poderá estar a achar que não deverá ter percebido bem alguma parte. Teresa Guiccioli era casada? Mas como mantinha então uma relação com o poeta que nos legou das mais fogosas palavras sobre Sintra, em inglês escritas? Como atrás o mencionei, o segundo marido de Teresa gabava-se de Byron ter sido cicisbeo de Teresa. E o cicisbeo era um homem ou um rapaz que, com o consentimento do marido de uma senhora, era o amante dessa. É claro que as coisas eram mais complexas e elaboradas do que aquilo que se pode escrever apenas em duas linhas, mas basicamente tinha que ver com uma mudança de mentalidades e com a preocupação com as aparências (claro, sempre e sempre, as aparências...), principalmente no que dizia respeito ao acompanhar as modas.

 

    E as modas foram mudando assim como as mentalidades. E a meio do século XIX era já notável a mudança que tinha ocorrido no espaço de um século. Do século XIX temos inúmeros exemplos.

 

    No início da década de 50, de 1850, vivia em Lisboa um casal de namorados. Isto, à época, não implicava viver na mesma casa. Ele vivia com os pais, ela vivia com as duas filhas. Ela tinha 17 ou 18 anos, tele tinha pouco mais de 20. Uma vez, Henrique vem até Sintra e, não tendo voltado como prometido, envia apenas um bilhete a Josefina, dizendo que estava tudo bem. Josefina, acredita saber o que acontecera e resolve aparecer no Hotel Victor, pagando a dívida que Henrique tinha contraído no casino ilegal que ali funcionava. Como é que ela conseguiu o dinheiro para pagar a dívida de Henrique? Foi simples, bastou vender todo o recheio da casa.

Senhoras numa varanda do Palácio de Monserrate, já no início do século XX

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    Como bem deverá calcular, quem leve um registo de vida baseado em atitudes como a que lhe contei, é capaz de não ter uma faceta financeira da vida que seja muito salutar. Mas há sempre solução para tudo! Quando Josefina soube que o senhor Manuel – conhecido de seu pai - tinha chegado do Brasil, pressentiu também que a sua situação se podia alterar. O problema foi que o senhor Manuel não apreciou muito a figura Henrique. E, passados alguns tempos, Henrique acabou mesmo por falecer. Adoentado.   

 

    Ficou assim o caminho aberto para o senhor Manuel. Provavelmente não para o que está a pensar. Primeiramente porque o senhor Manuel era um velho como eu, na casa dos quarentas – que era como eram realmente assim vistas as pessoas com esta idade. Segundo, porque tira muito mais dividendos quem possa aproveitar várias coisas que uma mesma situação possa dar. O senhor Manuel pagou uma série de dívidas que Josefina tinha, além de ter começado a pagar uma espécie de mesada. O dinheiro que Josefina recebia não lhe chegava até ao fim do mês. No entanto, se não gastasse dinheiro absolutamente nenhum, ao fim de cada oito meses conseguia comprar um Mosteiro da Pena (onde temos nos dias de hoje o Palácio da Pena). O Mosteiro foi assim tão barato? Não. O deboche é que era grande.

 

    Era comum no século XIX homens que tinham muito poder económico e que já estavam “velhos” (volto a frisar: casa dos quarentas), agraciarem com dinheiro e presentes raparigas jovens que fossem muito vistosas, para que estas estivessem sempre próximas daqueles e aparecessem com aqueles em sociedade. Uma forma paga de mostrar uma virilidade postiça. E, claro, quando isso assim se passava com raparigas que tinham pouco tino e controle, o desvario – além de ser completo – estava sempre a levá-las a venderem tudo o que tinham antes do final do mês, para comprarem novamente quando começasse o novo mês.

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Jovens senhoras a passear próximo do local onde hoje temos a parte final da estação de comboios de Sintra. Década de 1860

    Existe ainda mais uma história relacionando o senhor Manuel com Josefina e também com Sintra, mas essa ficará para outro dia. E, também, outros casos de cortesãs (como estas raparigas são conhecidas na História nos dias de hoje) com situações rocambolescas vividas em Sintra. E até casos do que tinha tudo para ser uma cortesã – apesar de trocar correspondência com Karl Marx e das sessões espíritas – mas que acabou por ser apenas uma esposa, como num dos casos de Monserrate.

 

    Qual o amante mais rico? O que se aproveita da situação? A que recebe um contínuo fluxo de paixão? O que paga tudo para ser o que não é? A que pacientemente a tudo cede? O mais bravio e pobre, que nada mais tem para oferecer senão a exuberância do seu coração? Creio que será uma dúvida que se manterá enquanto o ser humano existir, pois enquanto alguns vivem com um sentir fixo, outros aproveitam aquilo que o momento tem para dar. E as copas de Sintra estão constantemente a albergar uns e outros. 

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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