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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

Nostradamus
Por Sintra
Ludibriado

Nostradamus Por Sintra Ludibriado
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 30 de Agosto de 2019

    A determinado momento de uma das mais importantes obras que nos legou, Damião de Góis diz-nos que no cais que existia onde temos hoje a Praça do Comércio, um elefante se encontrava a recusar entrar numa barca para através dessa ser levado para uma nau. O Rei D. Manuel I mandou então, por duas vezes, que o tratador lhe dissesse – ao elefante – que embarcasse, pois o Rei lhe prometia por sua fé real de o mandar trazer ao mesmo lugar donde partia. O elefante, satisfeito com a promessa do Rei, deu dois urros como por testemunho da promessa de el-rei. Damião de Góis conta-lo na crónica do Rei D. Manuel, porque ele próprio foi presente quando na cidade de Lisboa, no Cais da Pedra, embarcaram o elefante que el-rei mandou ao Papa. Curiosamente, este Papa foi Leão X, que ofereceu uma lareira de mármore de Carrara ao Rei D. Manuel, a qual se encontra hoje na Sala das Pegas, no Paço Real de Sintra.

 

    Era comum termos em Lisboa animais exóticos. Alguns ficavam nos jardins do Paço Real que existia na Praça do Comércio, outros nos jardins do Palácio dos Estaus, que se situava próximo de onde hoje temos o Teatro D. Maria II. Estes últimos jardins estendiam-se para trás, para a actual Praça dos Restauradores.

 

    Por vezes faziam-se algumas procissões entre onde hoje temos a Praça do Comércio e a Sé de Lisboa, as quais contavam com vários elefantes, seguindo por vezes também uma chita. As ruas nesse tempo não eram como hoje são – assim como as casas – o que tanto provocou espanto a quem a isso assistiu, como a nós hoje que o assistimos somente em palavras.

A segunda edição da tradução de Michel de Nostradamus de uma das obras de Galeno (Exortação ao Estudo...). Ano de 1558

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    Damião de Góis relata-nos também um duelo que então – por curiosidade – foi combinado para uma arena colocada onde temos hoje a Praça do Comércio, a qual era rodeada de ameias. O elefante entrou na arena e somente passados momentos foram levantados uns largos panos que colocaram a descoberto um rinoceronte que na arena já se encontrava escondido. Assim que o rinoceronte viu o elefante fez um jeito para o índio que o trazia preso por uma cadeia comprida, como em modo de lhe dizer que o deixasse ir para onde o inimigo estava. Baixou o focinho e o corno, assoprando pelas ventas com tanta força que fazia levantar o pó e palhas do chão, como se fosse um redemoinho de vento. O elefante – que não era ainda totalmente adulto –, apesar de uma tentativa inicial de intimidação com urros, dirigiu-se para uma das janelas gradeadas que estavam numa parte arena, torceu dois dos varões das grades – que eram consideravelmente grossas – saindo por entre essas e começando a correr para o Rossio onde era sua pousada, não tendo conta com coisa que achasse diante, assim homens de pé como de cavalo, que perante todos passava, fazendo tamanha revolta que, com os brados que davam uns aos outros que se guardassem, parecia que era alguma batalha.

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Retrato de Michel de Nostradamus, feito pelo seu filho César

    Esta situação traz outra à memória: o combate que no século seguinte o Rei D. Afonso VI – o prisioneiro de Sintra – mandou que se organizasse entre um touro e um leão. Mas deste não lhe falarei como terminou.  

    A assistir ao combate na arena que havia sido colocada no que é para nós hoje a Praça do Comércio, encontrava-se um homem da região da Alemanha, o qual estava a viver cá em Portugal há cerca de vinte anos. Era conhecido como Valentim de Morávia e desde sempre trocara cartas com Konrad Peutinger, residindo este último em Nuremberga.

O livro Inscriptiones Sacrosanctae Vetvstatis, que continha a profecia do Cabo da Roca, publicado em 1534

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    Valentim descreveu a Peutinger** como era aquele animal exótico que acabara de ver, enviando em conjunto com a carta um esboço que tentava representar como o rinoceronte fisicamente era. Essa carta e esse esboço chegaram depois às mãos do famoso pintor coevo Albrecht Dürer, o qual decidiu fazer uma gravura baseada naquela descrição e naquele esboço. Essa gravura passados séculos acabou por chegar a Londres. Quer isto dizer que a gravura de um rinoceronte que vemos nos dias de hoje em Londres, no British Museum, é a gravura do rinoceronte português do Rei D. Manuel I.

    Como referi, Valentim escrevia com frequência para Peutinger. Anos antes, em 1505, Valentim escreveu a Peutinger contando a notícia de algo que tinha sido anotado pelo secretário do Rei D. Manuel I. Valentim relatava que tinham sido desenterradas três pedras perto do Cabo da Roca (assim nos é legado) com caracteres gravados, as quais se analisaram cuidadosamente. Aqueles caracteres formavam uma espécie de vaticínio, profecia, que havia sido escrita em latim muitos séculos antes de 1505. Valentim contou mesmo a Peutinger o que nessas pedras foi encontrado gravado, o que foi encontrado escrito.

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Gravura de Damião de Góis, realizada também por Albrecht Dürer (tendo a típica assinatura deste último no canto superior esquerdo)

    Para além da carta ter sido enviada a Peutinger, foi igualmente enviada as outros dois habitantes da mesma cidade de Nuremberga: Konrad Celtis e Münzer. Estes três habitantes deixaram obras literárias incompletas, que foram utilizadas por outros autores para publicar o livro Inscriptiones Sacrosanctae Vetustatis. Nesta publicação do século XVI, escrita em latim, encontramos a tal profecia que tinha sido supostamente encontrada numas pedras desenterradas nas proximidades do Cabo da Roca.

Gravura do rinoceronte do Rei D. Manuel I, realizada por Albrecht Dürer, a qual se encontra nos dias de hoje em Londres, no British Museum

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    E passados anos e – muito importante: – devido a estas cartas e a esta publicação, a profecia do Cabo da Roca apareceu como introdução à tradução francesa de uma obra de Galeno. Sabe quem foi responsável por a profecia do Cabo da Roca aparecer nessa tradução francesa dessa obra de Galeno? Michel de Nostradamus. “O” Nostradamus. Para além do fascínio destas ligações todas terminarem em Nostradamus, há mais uma coisa a acrescentar, a qual talvez provoque um fascínio maior. Parece que, segundo autores portugueses dos séculos XVI e XVII (como por exemplo André de Resende e Duarte Nunes de Leão) os quais tiveram contacto muito próximo com escritos e pessoas que viram as ditas pedras da profecia, a profecia era falsa; as pedras terão sido forjadas como antiguidade e enterradas pouco tempo antes de terem sido – propositadamente – encontradas.

    Quer isto inevitavelmente dizer que a profecia que aparece na tradução da obra de Galeno Exortação ao Estudo das Belas Artes/Letras é falsa.

    E quer isto também inevitavelmente dizer que Michel de Nostradamus foi assim também enganado por portugueses, e com uma coisa “encontrada” em Sintra.

    Por ser algo tão curioso não posso deixar de dizer que no livro Sintra Lendária (ano 2014) poderá encontrar um capítulo exclusivamente dedicado a esta investigação, com o que as pedras tinham escrito (acompanhado de tradução), com o que os autores que referiram que eram falsas escreveram, e com muitas outras coisas para avivarem o seu deslumbre.

** Embora nos últimos anos as informações não tenham sido tão precisas, Jürgen Pohle confirma que as cartas chegaram a Peutinger, acompanhadas de um desenho do rinoceronte.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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