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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2020 ~

Livros Lendários
(2ª Parte)

Livros Lendários (2ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 02 de Outubro de 2020

    Na 1ª parte falei-vos do Livro da Montaria no qual conseguimos sentir muito de uma Serra de Sintra do passado, principalmente através da enorme sensibilidade que o Rei D. João I teve para com o movimento da natureza que aos outros, através desse livro, queria passar. E, nestes meus artigos, se o óbvio de Sintra não está presente é porque fica muito mais enraizado aquilo que é passado em sentimentos e na verdadeira compreensão do coração, do que na defesa de conhecimento por parte do próprio autor ao escudar-se em datas, referências, diz-que-disse, e outros mais adereços, esquecendo o que realmente importa: o peito de quem estas palavras lê.

 

    Nos anos de 1300 abre-se uma história. Às escondidas, um indivíduo de nome Álvaro fala com o Conde de Barcelos. Falam sobre a possibilidade de se matar o Conde de Ourém, título recém-entregue a um nobre galego. A razão por detrás disto é que se diz, por entre os caminhos e as vielas, a uma meia sombra provocada pelas candeias da ronda nocturna, que o Conde de Ourém anda envolvido com a Rainha D. Leonor – a qual enviuvara recentemente e que estava prestes a entregar sub-repticiamente o Reino de Portugal ao Rei de Castela. Álvaro e o Conde de Barcelos falam deste assassinato de forma cada vez mais vívida.

A morte do Conde de Ourém. José de Sousa Azevedo, c. 1860. Museu Soares dos Reis

Livros Lendários (2ª Parte) - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 1.

    Mas antes de vos contar o que aconteceu terei de interromper esta história para contar o que se passou umas décadas antes. Umas décadas antes tínhamos um príncipe (não se usava então o título de “príncipe” em Portugal, mas sim de “infante” para todos os filhos do rei) que teve uma esposa durante quase dez anos. Teve-a, até essa ter falecido. A sua esposa, não sendo portuguesa, tinha vindo para Portugal trazendo uma comitiva consigo. Nesse tempo, ou veio nessa comitiva ou veio à parte, um indivíduo cujo filho veio aqui para a Serra de Sintra, para próximo de São Pedro, viver como eremita num sombrio e húmido vale. Na comitiva da esposa do príncipe, veio também uma dama muito, muito jovem, com a qual o príncipe após a morte de sua esposa se envolveu. Esta história é triste pois o príncipe perde pela segunda vez a pessoa que deveria estar a seu lado. Perde esta dama que muito jovem tinha vindo naquela comitiva. Prometeu nunca mais ter o seu coração disponível para mais ninguém, mas aconteceu envolver-se brevemente com uma mulher e ter dela um filho, filho esse que foi criado nas ruas medievais de Lisboa.

 

    Voltemos à primeira história que vos contava, à conspiração entre Álvaro e o Conde de Ourém. Ambos conseguem convencer um cavaleiro a fazê-lo, a cometer esse assassinato. E houve uma razão para terem convencido este cavaleiro em específico - o qual contava então com cerca de 25 anos - a fazê-lo. O cavaleiro vai até ao castelo onde o Conde galego se encontrava, consegue ficar a sós com ele, e mata-o. É assim espoletada a outra parte do plano: O pajem do Mestre [o pajem do cavaleiro] começou a ir rijamente a galope, bradando pela rua: ‘matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços [no castelo] da Rainha! Acudi ao Mestre que o matam! O povo entra em alvoroço e começa a percorrer as ruas da Lisboa medieval. Ao aperceberem-se de que o Bispo de Lisboa não tocara os sinos aquando de reunir pela defesa do Mestre [do cavaleiro], entram na Sé de Lisboa e atiram o Bispo, que era castelhano, de uma torre abaixo.

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O Paço Real de Belas, também mencionado nas crónicas de Fernão Lopes

    O Mestre/o cavaleiro, ficava assim sem o Conde de Ourém como obstáculo, e também com o povo do seu lado. O povo diria então: Porque esperamos? Tomemos este homem [o Mestre/o cavaleiro] por defensor, porque a sua discrição e fortaleza é tanta que bastará para repelir todos os perigos que nos podem advir!

 

    Isto, que vos estive a contar, são as raízes do que viria depois a culminar com o termo “Aljubarrota”. A interrupção que fiz a meio, para vos falar daquele príncipe, é a história de Pedro e Inês – reparem como nos referimos sempre a esta história como sendo de Pedro e Inês, e poucas vezes como do Rei Dom Pedro; só por aí é possível ver a intensidade que a mesma tem, e que, ao contrário de Romeu e Julieta, aconteceu na realidade. Quer isto dizer que o filho que o Rei Dom Pedro teve com uma mulher após a morte de Inês de Castro, era o Mestre, o cavaleiro, de quem vos tenho aqui falado.

Ilustração de Roque Gameiro mostrando mais uma passagem das crónicas. Ano de 1904

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    E como sabemos nós isto que hoje vos conto? Sabemo-lo porque... Em 1418 existiu um indivíduo registado como sendo escrivão do Infante D. Duarte. D. Duarte tornar-se-ia Rei de Portugal cerca de 14 anos depois (e também muito vos tenho a contar sobre ele). Acredita-se que terá sido D. Duarte quem pediu a esse indivíduo que escrevesse as crónicas dos Reis de Portugal, com especial destaque para a de seu pai, a crónica do pai de D. Duarte: precisamente “o Mestre”/”o cavaleiro” de que vos falei, e que ficou conhecido na História como Rei D. João I, o de Boa Memória. Já o nome do indivíduo que escreveu estas crónicas era Fernão Lopes. Posso dizer-vos que quem tenha paciência para ir lendo as crónicas de Fernão Lopes ao longo da vida, começará a achá-las cada vez mais deliciosas. Não apenas pelos contornos, pelos ardis, pelas aventuras, pelas bizarrias; começará a achá-las cada vez mais deliciosas pela forma como Fernão Lopes as conta, pelos seus jeitos em sua escrita, pelas surpreendentes expressões que usa, pela forma como consegue perceber as relações sociais entre os homens e, principalmente, pelos sentimentos e emoções implicados nessas relações, coisa tão rara de se encontrar tanto hoje como no passado.

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Iluminura do século XV mostrando uma parte que é descrita em detalhe nas crónicas de Fernão Lopes. Recueil des croniques d'Engleterre (Jehan de Wavrin), século XV. British Library

    As crónicas escritas por Fernão Lopes são livros até mais do que lendários. São livros de uma enorme importância tanto para a História de Portugal, como para compreender a identidade da nossa cultura, em todos os seus altos e baixos, em todos os seus prós e contras. Eu gostaria imenso de mais das crónicas dele vos falar, mas tanto há para se dizer que o espaço nunca seria o suficiente. O que vos posso dizer é que é graças a Fernão Lopes que conhecemos hoje a história de Pedro e Inês. Para alguns poderá parecer uma insignificância, mas para outros será o oposto. É também graças a Fernão Lopes que conhecemos muitos traços de personalidade dos nossos portugueses do século XIV; além de ouvir as histórias que as pessoas então contavam sobre esses acontecimentos que tinham tido lugar décadas antes, Fernão Lopes ia depois tentar confirmar essas mesmas histórias com os documentos legais que o Reino possuía, contendo eles muito mais detalhes do que os documentos legais dos dias de hoje. É também Fernão Lopes que dá mais cor à vida do Castro (sobrinho de Inês de Castro) que veio viver como eremita para a Serra de Sintra. Ou que fala da vinda de D. Nuno Álvares Pereira a Sintra, quando o castelo estava em mãos castelhanas. Ou que nos fala daquele dia em que o Rei D. João I tentou encaminhar-se para Sintra com os seus cavaleiros, mas os negros céus soltaram toda a água deste mundo e do outro.

 

    Muito possivelmente, se D. Inês de Castro não tivesse sido assassinada, D. Pedro não se teria envolvido brevemente com uma mulher, e não teria tido o filho dessa. Nesse caso não teria nascido a criança que depois se tornou no Mestre, e posteriormente em Rei D. João I de Portugal. E aí, dificilmente teríamos tido uma relação tão forte entre a Casa Real de Portugal e Inglaterra. E chegando à Vila de Sintra, não veríamos hoje as enormes e cónicas brancas chaminés do Paço Real de Sintra.

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