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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2016 ~

A Lenda das Pegas
e D. João I

A Lenda das Pegas e D. João I
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 12 de Fevereiro de 2016

    Um esgar de curiosidade ou lábios a sorrir, são muitas vezes o que encontro na cara das pessoas quando menciono a Lenda das Pegas. Tudo, por causa de “pegas”. Os mais antigos e os mais ligados à planície e aos montes sabem em sua natureza o que designa comummente essa palavra: uma ave. Pica, em latim, é o nome científico da sua categorização no mundo animal.

    E sim, é verdade que a Lenda das Pegas fala realmente da ave, da pica. A lenda remete-nos para o século XV e conta que o Rei D. João I certa vez veio ver como estavam a decorrer as grandes reformulações em Sintra, das quais resultou o Palácio da Vila – ou pelo menos, com uma configuração semelhante àquela que hoje em dia conhecemos. Veio o Rei e… veio também a Rainha.

 

    O Rei foi ver como corriam as obras, e a Rainha D. Filipa, uma inglesa de Lancaster, ficou com as suas damas. A determinada altura a Rainha foi procurar o Rei, e “quem procura acha”: eis que se deparou com o Rei a beijar uma outra donzela. D. João apercebeu-se de que estava a ser observado, e quando viu que o era pela Rainha, tentou remediar o caso dizendo “por bem!” como se aquele beijo tivesse sido dado sem nenhuma malícia, apenas por bem. As damas da Rainha, atrás de D. Filipa, riram baixinho e repetiram com sarcasmo… “por bem… foi por bem…”

O Palácio da Vila no início do século XVI

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    O Rei ficou tão desagradado que, para dar uma lição às damas da Rainha, no próprio Palácio que se encontrava em construção, mandou pintar o tecto de uma das salas repleto de pegas, tendo por baixo um listel onde se lia “por bem”. Tudo porque a pega é uma ave que muito grasna, que muito “fala”.

    Tal como já vi aqueles dois tipos de reacções com que abri este recontar, também já li muitas e diferentes versões, e ouvi muitas transformações da lenda nas bocas de outras pessoas. É normal no contar e recontar que as lendas ganhem um molde próprio nas alterações involuntárias que as pessoas lhes fazem, quer por esquecimento, quer por falsas memórias, quer outras vezes por interpretações vindas não se sabe bem de onde, como aquela que refere que o número de pegas no tecto era o número de criados que existiam no Palácio então.

    Mas esta Lenda das Pegas começa uns quantos séculos antes do nosso, nos anos de 1600. E começa com… uma visita da Fonte Velha do Rossio e de Apolo - que nessa se encontrava - à Fonte Nova do Terreiro do Paço e à sentinela que a guardava. Esta visita na qual estas duas velhas fonte têm vida, faz parte do Apologos Dialogaes, uma obra de Francisco Manuel de Melo, uma figura insigne do século XVII. Aliás, ainda a propósito da obra, na mesma há uma outra parte em que o Relógio da Cidade (da Igreja das Chagas) mantém uma conversa com o Relógio da Aldeia, “personificado” na obra pelo relógio de Belas, à altura apenas com 30 anos. Mas estes pormenores serão para outro recontar, que não este.

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O tecto da Sala das Pegas, Palácio Nacional de Sintra (Palácio da Vila)

    No diálogo que as fontes, a sentinela e Apolo têm, o Deus grego refere a determinada altura que o Rei Edward III de Inglaterra tinha criado a Ordem da Jarreteira a partir de uma situação em que numa dança, uma dama deixara cair a sua liga; ele apanhara-a por gentileza e, como sendo algo muito íntimo da senhora, todos em silêncio o sentiram como atrevido. Foi esse o impulso que o levou a criar a Ordem da Jarreteira, num revivalismo da Távola Redonda, dos ideais nobres de cavalaria.

 

    Depois de Apolo ter contado este episódio, a sua fonte, a Fonte Velha do Rossio, ironicamente diz não ter a certeza de ter sido igualmente por um tão justificado motivo que se fez a casa das Pegas, e que já ouvira a decanos dizerem que a tinha mandado fazer D. João II (sim, “II”) por naquele lugar ter tentado pegar uma dama e ela lhe respondera ironicamente enquanto se lhe escapava: pega, pega.

 

    Terá sido esta a lenda original? Muito provavelmente. As transformações que foi sofrendo ao longo das décadas e dos séculos transformaram-na no que hoje é. É possível que a procura de sentido a tenha assim tornado, tendo por base factos como o de D. Duarte – avô de D. João II que Apolo menciona – já no seu tempo escrever que existia no Palácio uma câmara das Pegas.

Casamento de D. João I com D. Filipa de Lancaster (iluminura do século XV)

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    Mas não só. Também do tal ideal de cavalaria, do tal revivalismo da Távola Redonda, também D. João I fez parte, pois o Rei Edward III igualmente o tornou num dos cavaleiros da Ordem da Jarreteira nos primeiros anos de 1400.

 

    E que dizer de Filipa de Lancaster, bela rosa de encantadores medievais motivos, que gerou aquela geração nomeada como ínclita por Camões? D. Filipa está tão próxima de D. João como Por Bem estava do Rei. Este foi um de seus motes, tanto que até no túmulo do casal o seu se conjuga, é sequência, com o mote da Rainha: algo como Me Contenta (Y me Plait).

 

    Também o Por Bem de D. João I se entrelaça com a Inglaterra de D. Filipa de Lancaster, com a Inglaterra da Ordem da Jarreteira da qual o nosso Rei foi o primeiro português. Com a Ordem da Jarreteira que surgiu – como Apolo da Fonte Velha do Rossio e outras crónicas o dizem – quando numa festa Edward III apanhou do chão uma liga, uma íntima peça de vestuário de uma dama, para lha entregar. Vendo todos em redor de si comprometidos, proferiu em francês medievo aquilo que pode ser traduzido como “envergonhe-se quem nisto vir mal”.

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O Rei de Inglaterra, Edward III, com o traje da Ordem da Jarreteira (iluminura do século XV)

    Foi este o espírito que levantou o sempiterno Palácio da Vila de Sintra; foi este o espírito que educou as gerações de reis, príncipes e infantes, que tornaram o século XV numa das mais ricas fontes de prazer para quem contemple os quase 900 anos da nossa história. E é um orgulho ver Sintra nela destacada, recordando as aves nos caminhos a crocitarem na passagem do casal real a caminho da fresca Serra de Sintra.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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