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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

O Lagarto, o Coração
e o Dragão

O Lagarto, o Coração e o Dragão
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 28 de Outubro de 2017

    No último século e, em especial, nos últimos anos, tem crescido o interesse pelas marcas de canteiro presentes em muitos dos monumentos nacionais.

    Marcas, assinaturas ou siglas de canteiro são sinais que encontramos em algumas das pedras que formam os corpos desses monumentos e que foram deixados por pedreiros há vários séculos atrás – podendo ir no caso português, até cerca do século XV ou, eventualmente, mesmo XIV. Assim como é importante frisar que um destes pedreiros do passado era aquilo que se pode denominar de maçon, era-o numa diferente forma de maçonaria daquela que hoje se conhece. Mas isso são contas de outro rosário.

Coração trespassado, marca no exterior do Palácio da Vila

Assinaturas ou Siglas de Canteiro - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    Em Sintra conhecem-se marcas em alguns dos nossos monumentos: no Palácio da Pena (na parte do antigo Mosteiro da Pena), na Igreja de Santa Maria, na Igreja de São Martinho, no Palácio da Vila, entre outros. Mas este último caso é o que agora interessa para me fazer chegar até si.

    No Palácio da Vila encontramos um longo rol desses sinais, dessas siglas de pedreiro. Existem no entanto três desses sinais que pretendo aqui destacar.

    O primeiro trata-se de um lagarto contendo – sendo em si mesmo já uma sigla – uma das tais marcas de canteiro, como tantas outras, a uma letra se assemelhando.

     O segundo, um coração trespassado por uma flecha.

    Relativamente a estes dois, a forma elaborada como o primeiro – o lagarto – se apresenta, embora que em simples curvas sendo muito apurado para o traço dos esboços (e aqui aludo apenas a esboços) da época, aumenta a desconfiança em relação a ser considerado uma marca de canteiro, não existindo no entanto a mesma desconfiança em relação à marca que o lagarto em si contém, graficamente semelhante a uma letra, como num grande número destas ditas assinaturas.

Assinaturas ou Siglas de Canteiro - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

Um dos reais brancos do reinado de D. João I, cunhado no Porto e com o “y” por baixo da coroa – colecção pessoal do autor

    O coração trespassado por uma flecha – por alguns considerado como uma assinatura de canteiro – por ser tão elaborado no seu traço e tal composição tão utilizada em iconografia do século XVII (até no último artigo que escrevi neste recanto do Jornal de Sintra deixei uma gravura de um, correspondente a esses anos) parece também ele fugir às marcas de canteiro.

    E para terceiro poderia ter até trazido a lume uma das rudimentares formas mais compostas, representada no Palácio naquilo que tomamos como um pentagrama; mas esse símbolo – para além de apresentar-se de uma rudimentar forma, como referi – poder-se-á dizer que é intemporal, visto que já mesmo no Império Romano era utilizado frequentemente como um símbolo de protecção. Além do mais, a terceira suposta marca de canteiro é aquela que por sua forma mais se evidencia.

    O terceiro símbolo é composto por duas hastes formando um “v”, contendo esse “v” um prolongar uno das hastes, que termina naquilo que aparenta ser a parte cimeira de um símbolo de flor-de-lis. E em algumas partes do Palácio da Vila encontramos este símbolo, umas vezes menos elaborado, outras, elaborado e com as pontas das hastes cada uma com dois bicos muito característicos.

Reprodução (aproximada) de uma das marcas de canteiro “y”, presente no livro O Paço Real de Cintra

Assinaturas ou Siglas de Canteiro - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    Seguindo pela nossa história e indo até ao passado, mais precisamente aos séculos XV e XVI, encontramos este símbolo como sendo a letra gótica para “y”. Foi letra essa utilizada para representar o nome Iohannes (João) como Yohannes, mas também Iesus (Jesus) como Yesus. Tal como não temos flexibilidade para ver nessa época o íntimo parentesco das letras “i”, “j” e “y” – que muitas vezes faziam as vezes umas das outras –, também não nos apercebemos que no seu tempo, o Rei D. João I – o grande obreiro do Palácio da Vila – mandava cunhar as moedas com IHNS, precisamente de Iohannes, o seu nome.

    Mas no ano de 1415 dar-se-ia uma mudança. As suas moedas de real branco começaram a conter no centro ao invés do IHNS do seu nome (Iohannes), um “y”, mas um “y” gótico; um “y” com dois bicos em cada uma de suas duas hastes, parecendo terminar a extremidade oposta e una, na ponta cimeira de uma flor-de-lis. Em algumas marcas do passado do Reino de Portugal encontramos outros “y”, também eles góticos, mas um dos que mais se aproxima deste “y” das moedas de real branco, nos seus traços, nas pontas de suas duas hastes, é precisamente aquele que encontramos no Palácio da Vila, como suposta marca de canteiro.

    Pela forte marca de D. João I é muito difícil não associarmos os dois, muito embora pelo menos uma dessas marcas se encontre na ala manuelina do palácio, ou seja, sendo pós-D. João I.

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Portal manuelino onde se encontra uma das supostas marcas de canteiro “y”, em desenho da Rainha D. Amélia apresentado no livro O Paço Real de Cintra, de 1903

    E, sendo D. João I das mais fortes figuras de dignidade neste Reino que abarcou tantas fracas figuras, é-nos impossível não recordar que precisamente nesse ano de 1415, a sua mulher, o astro e Rainha D. Philippa of Lancaster, faleceu; é-nos impossível não relembrar que o seu mote era precisamente “Y me plet” – podendo aludir aqui o “Y” também a Jesus.

    Em todas estas associações e sequências de ideias e percepções, fica bem presente um cuidado que queremos crer existir, tanto por aquilo que D. João I fez em Sintra (recorde-se também o Mosteiro de Penha Longa, a título de exemplo), como pela sua ampla dimensão de dignidade.

Reprodução da suposta marca de canteiro em forma de lagarto, presente no livro O Paço Real de Cintra

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    Para terminar, relembro a associação indirecta que se faz relativa à chegada da Rainha, à chegada da mãe da Ínclita Geração: o grito de guerra português ter mudado de “Por Santiago” para “Por São Jorge”, pela influência inglesa – especialmente a anotada sobre Aljubarrota – e da relação dessa nação com o santo. Nessa época começa a surgir o dragão associado a alguma da heráldica de D. João I, ou descendente do Rei. Aliás, o que vemos no antigo pórtico que dava acesso ao terreiro do Palácio da Vila (abaixo do miradouro na parte Este do terreiro) é precisamente a recriação disso mesmo: um dragão por cima da coroa que tem por baixo de si o brasão do Rei D. João I. É também um dragão, uma serpe alada, deixando para trás a cauda, que no “y” dos reais brancos e da suposta assinatura de canteiro do Palácio da Vila, se parece levantar à frente de nossos olhos: as hastes do “y” sendo suas asas, a cauda da letra a cauda da serpe alada.

    E porque passou o Rei a utilizar a fera que afinal, representando o mal, era o grande inimigo quer de São Jorge, quer do espírito humano? É algo que não ficará para hoje. Para hoje ficará o encanto por – mais do que lagartos, corações ou dragões – D. João I.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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