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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

João de Sá, o Panasco
(2ª Parte)

João de Sá, o Panasco (2ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 10 de Março de 2017

    Nota: este artigo foi escrito no Verão do passado ano de 2016, tendo a sua primeira parte sido publicada no Jornal de Sintra em Fevereiro de 2017, antes de ter surgido a infeliz polémica que também abrangeu o quadro em questão.

    Na primeira parte deste artigo falei sobre os tempos em que viveu um escravo africano nascido no Congo, cujo percurso de vida o fez ser visto tanto como um bobo na Corte, como o levou também a alcançar o estatuto de cavaleiro da Ordem de Santiago.

    Para que consiga perceber a importância, o renome, por assim dizer, de João de Sá, o Panasco – o tal escravo, bobo e cavaleiro –, na sociedade portuguesa de então, existem pelo menos três anedotários (“anedota” aqui no sentido de memória invulgar) do século XVI – ou a ele alusivos – em que João de Sá, o tal cavaleiro negro da Ordem de Santiago que nascera no Congo e viera criança para Portugal enquanto escravo, tem um enorme destaque, possuindo num desses anedotários, por exemplo, um número de histórias superior a toda a nobreza e só suplantado por aquelas referentes à família real.

    Muitas delas são ideais para que se consiga perceber, sentir, o que o elevou – a sua inteligência e “estômago emocional” – num mundo cão, mais cão ainda sendo por inicialmente ter sido um escravo. E isso ganha um maior realce quando certas histórias são contadas com os sentires errados.

    Por exemplo: certa vez, um nobre, defronte do Rei, começou a soprar no símbolo vermelho da Ordem de Santiago presente na capa preta que João de Sá (e todos os cavaleiros da Ordem) utilizava; o nobre soprou e disse que tentava soprar aquele pedaço de brasa, visto que aquele carvão se ia apagando. Num contexto normal, brincar com as características de alguém desta maneira seria engraçado. Mas não numa situação impregnada de um racismo acérrimo. No entanto, como é que um homem com o estômago emocional de João de Sá ficaria envergonhado, embaraçado, como várias dessas histórias erradamente o querem fazer crer?

    Noutra situação em que João de Sá havia brincado com todos os que se encontravam presentes à mesa real (o Rei queria que de Sá estivesse sempre presente, pois muito o animava com a sua sagacidade), um nobre pegou nas mãos de Sá, fechou-as sobre a mesa, e disse “Senhor, ameixas passadas” (e aqui percebemos que João de Sá tinha sua tez muito escura e muito possivelmente também fina (com a pele das mãos enrugada)); voltando-as ao contrário já com as palmas das mãos de João de Sá abertas, disse novamente o nobre: “barrigas de caranguejos” (devido à gradação clara no tom das palmas das mãos do africano).

João de Sá, o Panasco (2ª Parte) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

Fragmento do quadro do século XVI conhecido como Chafariz d’el Rey, em que aqui se destaca o cavaleiro negro da Ordem de Santiago por poder ser uma representação de João de Sá, o Panasco, figura muito falada da sociedade portuguesa da época

    Já a graciosidade de de Sá era incomparavelmente mais apurada. Falando certa vez com graça de todos os fidalgos que estavam à mesa do Rei, houve um que foi propositadamente esquecido pelo Panasco; esse era filho de um oficial do Paço, que sentindo-se esquecido inquiriu “então e eu, Panasco, que vos pareço?” João de Sá olhou por cima do ombro e disse acintosamente “vós? Vós pareceis um fidalgo” – intencionalmente assim sublinhando que o fidalgo não o seria.

    Com este ser humano, que se encontra escondido na história, ficamos surpreendidos pelo inesperado que nos aparece à frente, do passado directamente vindo. Mas existem mais surpresas. Existe um quadro de pintor anónimo, especulando-se que seja de fabrico situado entre 1560 e 1580. Nesse quadro vemos o Chafariz d’el-Rei na zona de Alfama. Vemos também – com uma perspectiva interior do rio Tejo (onde se vê um lobo-marinho esgueirando-se entre a ondulação com um peixe na boca) – uma multidão, na sua normal rotina diária, onde encontramos os mais baixos e excluídos estratos sociais de Lisboa do século XVI. Nessa multidão há uma figura que se destaca. Destaca-se talvez por ser a mais bem vestida em todo o plano; por estar a cavalo, e numa pose imponente montado; por estar num cavalo com uma garupa e peito ricamente – e não é exagero para a época em questão – guarnecidos; por tudo isso, e por ser um africano negro quando todos os outros no quadro estão evocados nas maiores misérias (inclusivamente com um a ser preso e outro aparentemente trajado como mulher a entreter um casal num pequeno bote); por esse africano negro estar montado da maneira como está, no cavalo ricamente coberto como aquele está, e por ter um manto negro com a vermelha cruz da Ordem de Santiago. Se me refiro a João de Sá, o Panasco? Não sei, não posso garanti-lo. Mas tudo aponta para que seja a representação de Panasco, galhardamente trajado. Para além de toda a riqueza com que aprendeu a viver desde que foi como peça (termo utilizado para escravos) dado ao Príncipe D. João (futuro Rei D. João III), e que se vê reflectida tanto na personagem como no cavalo dessa no quadro, como bem deve imaginar, foram poucos aqueles que, não sendo europeus “brancos”, chegaram a cavaleiros da Ordem de Santiago. Aliás, a partir da década de 1550 só mesmo quem tinha sangue puro é que – por bula papal – poderia alcançar o estatuto de cavaleiro da Ordem de Santiago. Além do mais – entre outros pormenores que poderia mencionar, mas cuja brevidade do espaço deste artigo mos corta –, cronologicamente, a representação é acertada, pois nascendo no início dos anos de 1500, ou um pouco antes, João de Sá, o Panasco, teria, muito possivelmente, entre 1550 e 1580 (datação já estendida para este quadro), o cabelo branco ou grisalho, coisa que no quadro em questão realmente se verifica.

    O destaque deste homem enquanto João de Sá no quadro seria o mesmo que esse ser humano obteve na cultura, história e sociedade de Portugal de então (e que, enquanto pertença de um conjunto de minorias, furou os séculos até aos olhos de hoje, menos míopes e mais capazes de o apreciar pela inteligência e sagacidade que o destacaram entre os demais num mundo cão).

João de Sá, o Panasco (2ª Parte) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

Imagem do quadro do século XVI conhecido como Chafariz d’el Rey, gentilmente cedida pela Colecção Berardo. No quarto inferior direito do quadro pode ver-se o cavaleiro negro da Ordem de Santiago montado a cavalo, enquadrando-se na possibilidade João de Sá, o Panasco, figura muito badalada na sociedade portuguesa do século XVI

    E como é que João de Sá, o Panasco, se relaciona com Sintra? De – pelo menos – três formas muito simples, mas também elas voláteis. Primeiramente, através de D. João de Castro, por ter feito parte da mesma “expedição”, em que os bravos do infante D. Luís seguiram à parte até à Catalunha. Segundo, sendo de Sá uma presença assídua na corte, e vindo tantas vezes D. João III para Sintra (um dos poucos itinerários do reinado do Rei), é praticamente impossível que o Panasco não tenha passado debaixo das arcadas ou andado pelos pisos do Paço Real de Sintra que hoje percorremos. E terceiro: uma tarde de Sá foi ao Paço – não é especificado qual –, e quis ir “à casa” onde D. João III se encontrava. O porteiro que o Rei tinha à porta murmurava-se dele que era de nascimento humilde, e o que é certo é que recusou abrir a porta ao Panasco. Este último retorquiu de forma imperiosa, mas num tom jocoso. Palavra puxou palavra e tornou-se a discussão tão acesa que começaram às pescoçadas (dar pancadas com a mão no pescoço). Às tantas o Rei abriu a porta e meteu a cabeça de fora, dizendo “Alto! Aqui tanto atrevimento?” E eis que João de Sá responde “Sim senhor, aqui diante de Vossa Alteza fazemos muito bem de pelejar [brigar], porque se Vossa Alteza não tirara a fulano que aqui está de detrás dos mus de seu pai, e a mim da estrebaria de D. João de Menezes, não viéramos aqui dar desgosto a Vossa Alteza; mas já que V.A. nos trouxe aqui (...) tenha paciência.” O Rei meteu a cabeça para dentro, e encerrou a porta sem dizer nada. “Mu” é um filho de burro e égua ou de cavalo e burra, mas significava também gado no geral. E, para se ser porteiro da câmara do Rei havia que ser fidalgo – como se entende também pelo que o Panasco evoca –, mas certo é que se conhece uma excepção. Em Sintra. Gaspar Gonçalves, filho de lavradores da região de Sintra, que chegou a porteiro do Rei D. Manuel e do Rei D. João III (na verdade chegou inclusivamente a Porteiro-mor). Seria este porteiro que veio de lá detrás dos mus o Gaspar Gonçalves, que originou a Quinta de Ribafria que hoje conhecemos? É muito possível. E o falatório sobre ele, esse era certo existir, como um físico (médico) do Rei uma vez estando chateado lhe transmitiu que o tempo fizera com que Gaspar Gonçalves alcançasse muita riqueza na sua vida num curtíssimo espaço de tempo, por ter vindo de muito humildes origens.

    João de Sá, o Panasco, mostrou-nos assim, e por fim, um ambiente de Sintra levemente pintado no século XVI. Não só esse ambiente, mas a surpresa que o passado muitas vezes em si guarda. A surpresa, mas a surpresa num dos problemas que ainda hoje existem na nossa sociedade. Mostrou-nos também a possibilidade de ainda encontrarmos representadas figuras da nossa história que mesmo sendo desconhecidas do grande público ainda se encontram escondidas com possibilidades de se mostrarem, como na possibilidade de no quadro da Colecção Berardo ser ele o representado. E mostrou-nos ainda como o ser humano, por muito limitado que se encontre pelas condições com que nasça, consegue superar-se e consegue superar a opressão daqueles que o tentam inferiorizar.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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