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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

João de Sá, o Panasco
(1ª Parte)

João de Sá, o Panasco (1ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 10 de Fevereiro de 2017

    Falar de João de Sá, o Panasco, não é propriamente fácil. Primeiramente porque João de Sá neste momento se deve estar a rir de nós os dois. De mim, que dele falo, e de si, que tenta compreender o que lhe digo. E porquê? Por várias razões. Uma delas é porque tratarei, inevitavelmente, de um tema que, mesmo do tempo de João de Sá ao nosso, perfaz quinhentos anos que continua actual. Um tema que tem estado sempre presente, e que às vezes o está em segredos e risinhos que esses segredares provocam – principalmente naqueles para quem o “diferente” é igual a “errado”. No passado 23 de Outubro, por exemplo, na celebração da Câmara Municipal de Sintra para o Dia Municipal da Igualdade, foi-me inevitável falar sobre João de Sá.

Fragmento da Batalha de Túnis em 1535 por Frans Hogenberg após esboço de Jan Vermeyen. O galeão Botafogo – por alguns identificado à esquerda – era comandado pelo Infante D. Luís, irmão do Rei de Portugal e cunhado do Imperador Carlos V

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    No momento em que escrevo estas palavras é noite, noite de Outono, e encontro-me no Miradouro da Vigia (Miradouro da Condessa de Seisal, Jardim dos Cardos, são outras denominações do lugar) imaginando toda esta paisagem nocturna em suas silhuetas de montes, sem iluminação artificial. E é inevitável lembrar-me das histórias de forcas nos tempos de João de Sá, o Panasco. O escuro, as vivências comuns, o tema em questão, eram todos eles imprevisíveis e trazem-me na memória do tempo uma história também do século XVI, que a noite caída evoca. Certa vez o Mestre da Ordem de Santiago disse a Pêro Drago que se à meia-noite aquele escrevesse o seu nome na forca lhe daria vinte cruzados; Drago aceitou, e à meia-noite lá estava a escrever o seu nome. De súbito, detrás da forca saíram os criados do mestre cobertos por lençóis brancos, como se se tratassem de fantasmas. Drago manteve o sangue frio e disse que se fossem almas pecadoras, que fossem ad requiem (para o descanso das almas penadas), mas que se fossem criados do mestre, que o deixassem ganhar os seus vinte cruzados. Esta é uma graciosidade da época que, embora contada de forma leve, demonstra muito bem o peso do ambiente, assim como a terribilidade da forca.

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D. Jorge, filho ilegítimo de D. João II e irmão do Príncipe Afonso (de quem o Pica Sino foi aio), foi Mestre da Ordem de Santiago – muito possivelmente aquando do episódio com Pêro Drago

    A Ordem de Santiago. Tudo seria natural se João de Sá tivesse chegado a cavaleiro da Ordem de Santiago de forma normal. "Normal", querendo com isso eu dizer através de seus merecimentos. Não estou também no entanto a dizer que o não mereceu. Já compreenderá o que quero dizer.

D. João III enquanto Príncipe. Receberia por esses anos do Pica Sino, o Panasco

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    A grandiosidade de Panasco chegou ao ponto de o Infante D. Luís, quando desobedeceu a seu irmão, o Rei D. João III, ter levado João de Sá consigo e um grupo de bravos, para se juntarem ao Imperador Carlos V na Catalunha, e para rumarem à conquista de Túnis no galeão que tinha a alcunha de Botafogo (alcunha da qual deriva o topónimo brasileiro mais conhecido). Uma situação curiosa dá-se aqui: vemos juntos na mesma demanda Carlos V, o Infante D. Luís, João de Sá (o Panasco), e ainda, o grande herói D. João de Castro (se não o sabe ou se não se recorda, D. João de Castro – para além de toda a sua história de vida – pediu a seu filho, Álvaro de Castro, para que fizesse surgir o Convento dos Capuchos nos montes da Serra de Sintra, coisa que o primogénito realizou, doze anos depois da morte do pai). No caminho que o infante D. Luís percorria com os seus bravos, antes de chegar à Catalunha João de Sá ter-se-á envolvido numa altercação, levando uma cutilada no rosto. Não foi impeditivo que o Panasco seguisse com os nobres na demanda de Túnis. Nessa expedição, o Imperador Carlos V quis armar cavaleiro D. João de Castro (coisa que não foi possível por já o ter sido anos antes), e João de Sá, o Panasco, parece ter-se destacado sobremaneira – até mesmo a forma como chegara a Túnis, com o infante D. Luís desobedecendo ao Rei irmão e com os seus bravos, deu-lhe um estatuto que quando o tema era o cerco de Túnis, fazia com que o bando de bravos tivesse um destaque nas conversas. Terá também tido isso uma grande influência no que o Rei D. João III fez: elevou João de Sá a cavaleiro de sua Casa, a cavaleiro da Ordem de Santiago. Presumo que uma possível grande influência para o caso tenha que ver com Santiago ter sido sempre invocado pelos Cristãos na luta contra os Mouros, e por a Ordem de Santiago ter surgido precisamente para a proximidade de combate espiritual e militar nas regiões fronteiriças aos Mouros no movimento da Reconquista (Península Ibérica).

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D. João de Castro, que participou na campanha de Túnis com D. Luís, Carlos V, e o Panasco, e que por diversas vezes neste espaço já mencionei a sua relação com Sintra

    Mas para que consiga melhor compreender todo este mundo e quem João de Sá, o Panasco, realmente era, preciso de lhe contar uma outra história.

    D. João de Menezes, conhecido como o Pica Sino (pois na segunda metade dos anos de 1400, quando pequeno, na casa de sua tia em Santos-o-Novo, ajudando o capelão repicava o sino sem fim), correu a cavalo o páreo com o Príncipe Afonso, filho de D. João II, corrida a qual originou a queda que levou o Príncipe a falecer. O trágico incidente fez com que D. João de Menezes se afastasse da corte. Só mais tarde é que D. Manuel I chamou de Menezes para governador da Casa do Príncipe (futuro Rei D. João III). Além desse título, de Menezes era também Camareiro-mor e, sendo-o, deu certo dia um escravo seu ao Príncipe D. João. Este escravo africano – cuja idade não devia andar muito distante da do Príncipe – tinha nascido no Congo, mas muito cedo viera para Portugal.

O Imperador Carlos V por Tiziano Vecellio, ano de 1548

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    Apesar de diferenciado por todos por ser negro, o Príncipe foi apreciando a forma graciosa e sagaz com que o escravo se foi desenvolvendo. Quando o Príncipe D. João se tornou no Rei D. João III, o escravo africano tinha os seus ditos ainda mais apurados, o que levou a que esse negro ficasse conhecido na história de Portugal como um bobo da Corte.

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Frontispício da Regla de la Orden y Cavalleria de S. Santiago de la Espada, ano de 1547

    A forma como entretinha o Rei e a Corte foi-se tornando cada vez mais apurada, ao que, sem qualquer dúvida, ajudou em muito o facto de ter o seu tom de pele escuro: tentando com ele gozar, faziam apenas com que a sua inteligência e sagacidade fizessem inverter as situações em que caía, mostrando depois, em subtis graciosidades, a inferioridade real, a inferioridade explícita, de quem o tentava colocar naquela posição de oprimido e indefeso.

Em Serpa, entre a atalaia e o castelo, o exemplo de uma forca isolada com enforcado pendurado (desenho tirado do natural, na primeira década de 1500 por Duarte d’Armas)

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    Este bobo ganhou um tal carisma que levou a que o infante D. Luís o levasse consigo e com um grupo de bravos para conquistar Túnis... E mais tarde fosse investido Cavaleiro da Ordem de Santiago. Sim, é verdade. Trata-se de João de Sá, o Panasco, nascido escravo negro, tendo, por sua inteligência, bravura e sagacidade, chegado a Cavaleiro da Ordem de Santiago.

 

    Mas João de Sá, o Panasco, tem mais para nos contar. E relacionando-se de forma muito simples com Sintra dar-nos-á mostras de como outra personagem da nossa história, e da história de Sintra, era também vista com bastante desconsideração, apesar de nos dias de hoje o seu nome – e as suas construções – ser dos mais conhecidos. A segunda parte de João de Sá, o Panasco, chegará em breve.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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