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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

O Fim de Mestre Gil
e Suas Sintras
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Gil Vicente e Sintra - 5ª Parte

O Fim de Mestre Gil e Suas Sintras
~ Gil Vicente e Sintra (5ª Parte) ~

por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 08 de Fevereiro de 2019

    A 4.ª parte desta sequência de artigos foi muito provavelmente a mais intensa. A dúvida tinha-me chegado com o aproximar do 14 deste mês, se sobre esse dia – sempre muito especial – escreveria um artigo com Sintra relacionado ou se findaria com a vida do Mestre, o qual, como temos visto, Sintra em muito enalteceu ao longo das suas obras, mostrando assim também uma forma de amor que servirá o dia que referi.

 

    O bravio com que o Mestre por duas vezes nas suas obras alude à Serra de Sintra (no Auto da Lusitânia ...brava serrania...; no Triunfo do Inverno ...Es la Sierra mas hermosa / que yo siento en esta vida; / es como dama polida, / brava, dulce y graciosa...) mostra por oposição todo o viço da natureza com que Sintra era então sentida, ao fazer aparecer para triunfo do Verão o São João Verde, aquele que como o nosso Green Man pode também ser interpretado. E, como vimos também, porque o Verão – a designação – de então, do século XVI, não era o Verão que conhecemos mas sim aquilo que correspondia à nossa actual Primavera.

 

Uma das últimas obras de Gil Vicente, antes do remate de Floresta de Enganos. Gravura presente na Copilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente (...)  Vam Emmendadas Polo Sancto Officio, edição de 1586. Biblioteca Nacional de Portugal

Gil Vicente e Sintra (5ª Parte) - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    Ainda na obra Triunfo do Inverno, sentimos através das palavras do Infante (“do”, sendo este equivalente a “de um”, pois não é determinado de que infante se trata) a estabilidade daquilo – do verdadeiro jardim – que ano após ano vai fazendo florescer os corações e mentes, ao invés de obra de fracos céus, esta última sendo toda aquela que inconstante é e que tanto faz florescer as flores como as seca: Se por estes dizes, pecas; / porque essas flores que fazes, / tu as fazes e desfazes, / Tu as floresces e secas. / E o santo jardim de Deus / floresce sem fenecer; / que o ser e logo não ser, / é obra de fracos céus, / que não tem fixo poder. / Que quantas frescuras dás, / e quanto tu e o Mundo tens, / é jogo de tu que vás, / e jogo de tu que vens. / Isto bem o entenderás.

 

    Mas o jardim, esse jardim a que em sua forma etérea o Infante também alude como santo, é o mesmo em essência que, tal como um príncipe dos antigos portugueses é na Serra de Sintra guardado (como o diz a personagem Serra de Sintra: ...Um filho de um Rei passado / dos gentios Portugueses / tenho eu muito guardado...), foi por Salomão enviado (...que Salomão mandou aqui...) e aqui também guardado.

Gil Vicente e Sintra (5ª Parte) - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

A representação do Filósofo e do Parvo, em que o primeiro trazia atado ao seu pé o segundo. Gravura presente na Copilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente (...)  Vam Emmendadas Polo Sancto Officio, edição de 1586. Biblioteca Nacional de Portugal

    O Infante, para que todo o Triunfo do Inverno se possa concluir, decide apresentá-lo, porque se devem de dar / as coisas a cujas são. - Vai apresentar o jardim a ElREi e diz: - Reis de todo mal imigos, / dignos de fama imortal, / este jardim perenal, / já de tempos muito antigos, / se encantou em Portugal. / O seu nome principal / Jardim de Virtudes é; / e segundo nossa fé, / vem-nos muito natural. / E lográ-lo-eis nó menos / horas e noites e dias, / dos que há que logra Elias / o jardim que nós perdemos. Das muitas interpretações que poderiam ser feitas, a que mais terra-a-terra é por por divertimento – de agora e do passado longínquo – e pelo seu prático, mostra-nos, no fim, como tudo termina as gentes de Sintra envolvendo:

 

Os Sintrãos em folia com o Príncipe se vão, cantando esta cantiga:

«Vento bueno nos há-de levar,

Garrido é o Vandaval»

 

    Estávamos então em 1529. Em 1502 tinha sido a primeira representação de uma obra do Mestre, actuando ele próprio praticamente só perante a Rainha, o Rei, e o então recém-nascido Príncipe. Em 1529 esse recém-nascido já se tinha tornado no Rei D. João III. E o que daqui, de 1529 para a frente surgiu, foi um lento apagar do Mestre, até o seu nome ter silenciosamente desaparecido. O Auto da Lusitânia (do qual falei na 2.ª parte desta sequência de artigos) foi concebido para celebrar o nascimento do Príncipe D. Manuel (a quem foi também posteriormente dedicado o retábulo da Pena (o retábulo ainda poderá ser visto nos dias de hoje no Palácio da Pena)). Contudo existiu uma outra obra de Gil Vicente que foi utilizada nas festas de celebração do nascimento do Príncipe D. Manuel, mas não cá em Portugal e sim em Bruxelas, na embaixada de Portugal em Bruxelas, no final do ano de 1531. À partida não terá sido a primeira vez que foi apresentada, e tinha o título de Jubileu d’Amores. Entre a assistência em Bruxelas encontrava-se um cardeal italiano, de nome Girolamo Aleandro. Depois da apresentação da obra o cardeal enviou uma carta ao secretário do Papa, queixando-se da peça. Entre os múltiplos traços heréticos, referia que a personagem principal até usava um barrete cardinalício, o qual tinha sido pedido – sem mencionar o fim – a um outro cardeal (ao que acompanhava o Imperador Carlos V). Jubileu – indulgência plenária dada pelo Papa sob determinadas condições – e ainda por cima de Amores, já muito deixa em aberto para aquilo que esta obra perdida pudesse conter como crítica a Roma. O que é certo é que o Cardeal Girolamo Aleandro nessa mesma carta ao secretário do Papa terminava dizendo que alguma atitude devia ser tomada. Estávamos em 1532. No ano de 1551 já aparecia no Rol dos Livros Defesos (a lista dos livros proibidos pela Santa Inquisição, promulgada neste ano pelo Cardeal D. Henrique) o Jubileu d’Amores.

A Vila de Sintra num entardecer dos tempos actuais. Saudades do espírito de Gil Vicente. Fotografia de Miguel Boim

Gil Vicente e Sintra (5ª Parte) - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    O que se especula é que na década de 1530 tendo a Inquisição começado a funcionar (mais precisamente em 1536), foi, ou terá sido, Gil Vicente a tornar-se um dos sentenciados dos primeiros anos – não há registo em nenhum processo, apesar disso. O Mestre depois de 1532 ainda cria o Auto de Amadis de Gaula, o Auto da Cananeia, A Romagem dos Agravados, e a última obra a ser levada à cena na corte, dá pelo nome de Floresta de Enganos.

 

    Na Floresta de Enganos, assim que o pano se levantou ficou à vista o Filósofo, tendo atado ao seu pé, o Parvo. E o Filósofo começa a falar: Asegun siento mis males, / Al discreto singular / Gran pena le es conversar / Con los necios perenales, / Sin lo poder escusar. / Los muy antigos Romanos, / Comenzando á ser tiranos, / Por que Roma se ofendia, / Yo por mi filosofia,/ Les di consejos muy sanos. E depois da referência a Roma, dentro do especulado vê-se o cerco a Mestre Gil apertar-se na continuação do discurso do Filósofo: Y porque la reprehension / Á todos es enojosa, / Me vi en grande pasion, / Y me echaron en prision, / En cárcel muy tenebrosa. / No bastó: mas en despues / De aquesto que oido habeis, / Solo por esto que digo, / Ataron ansi conmigo / Este bobo [Parvo] que aqui veis.

 

    Terá sido realmente este o fim de Mestre Gil? O silêncio imposto pela Inquisição? E se silêncio tiver sido sua pena, menos de mal maior foi do que aquele que podia ter sido, embora seu fim não saibamos. Mas o que sabemos e que não foi silenciado, foi como a Serra de Sintra ecoou no coração do Mestre e como ao fim de quinhentos anos ainda no coração do Mestre – e no nosso, através das suas palavras – ficou gravada.

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