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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2016 ~

Frei Honório
e os Homens Pequenos

Frei Honório e os Homens Pequenos
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 11 de Março de 2016

    “Calai-vos, filho, não sabeis o que dizeis. Na minha cova me nasceram os dentes, e nela hei-de morrer, o que será daqui a pouco tempo.” Assim falou frei Honório, já no fim dos anos de 1500. Entenda-se que seu quarto era a tal cova, uma concavidade numa das colinas do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra. Entenda-se ainda, que tinha sido nessa cova, além dos seus 90 anos de vida, que então lhe tinham nascido os tais dois dentes: um em cima, outro em baixo, de modo a melhor roer o pão.

 

    Não sou eu quem o diz, quem o diz é uma crónica de sua ordem (franciscanos), do século XVIII e que aglomerava – como mormente faziam – as palavras de manuscritos de séculos que lá atrás se encontravam, e que dentro dos velhos conventos e mosteiros descansavam enquanto a história de Portugal se ia formando e reformando.

Um capucho de Sintra (recriação), por Francis Seymour Haden em 1877

Frei Honório e os Homens Pequenos - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    Mas a crónica diz muito mais, e engrandece na pobreza “este” frade Honório. Se tem seguido os meus artigos aqui no Jornal de Sintra, já percebeu que para mim tão ou mais importante que as lendas, são os factos lendários da história. E aqui, neste homem que realmente existiu, que realmente viveu no Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, nós conseguimos novamente perceber o grau de grandeza da lenda enquanto lenda, e da história lendária enquanto alavanca para erguer a história de Portugal e, no caso, a história de Sintra e de um de seus monumentos religiosos – para mim, o mais belo.

    O que primeiramente lhe vou contar para que tente perceber a diferença entre as duas vertentes, chega-nos da década de 1960, dizendo entre outras coisas, que o “tal” frade Honório viveu 30 anos naquela cova, e que certa vez… “Frei Honório encontrou pelos campos uma linda rapariga, ‘para quem não olhou’, mas que o forçou a fazer alto. Exigia-lhe que a confessasse. O virtuoso monge, naquele ermo não tinha confessionário, e sem querer fixar a pequena, mandou-a para o convento em procura de outro confessor. A bela da moçoila não se conformou com a resposta e insistiu ao mesmo tempo com o bom religioso. Rubro como um tomate, a suar em bica – isto passou-se em Agosto – apressou o passo, sempre seguido daquela que lhe pedia absolvição ou penitência, até que, voltando-se e tapando o rosto com uma das mãos para fugir à formosura que o diabo incarnara para o tentar e perder, com a outra fez o sinal da cruz, a que a endiabrada e tentadora, respondeu com um grito, fugindo para não mais ser vista."

Frei Honório e os Homens Pequenos - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

Perspectiva do Convento dos Capuchos por William Burnett na década de 1830

    Esta é uma das várias versões da lenda de frei Honório. Existem várias, acabando sempre por tentar justificar a sua morada numa cova durante tantos anos, com um facto de cariz quase sempre sexual: sentiu-se tentado, ou a rapariga era muito bela, ou muito formosa, sentiu o que não devia (quase 90 anos?...) e para se penitenciar enfiou-se na cova; bom, enfim, um sem-fim de inventadas razões para algo “tão descabido” como um homem idoso se meter numa cova no meio da Serra de Sintra, para aí viver os seus últimos anos de vida.

 

    Por muito que pense – e já o fiz demoradamente ao longo do tempo – não consigo encontrar outra forma de encarar estes diferentes ângulos desta mesma pessoa que viveu na Serra de Sintra no final do século XVI, senão de uma única. Sei que muitas pessoas podem achar muita graça ao aparecimento da moçoila, ao embaraço libidinoso de um religioso, enfim, todas essas coisas que vêm sendo para tantos ao longo dos séculos, caturrices. Mas, a verdade é que para o engrandecimento da história, de Sintra, do belíssimo e selvagem Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, versões como esta são um apoucar do que nos é mais valioso. E é sobre isto que já pensei demoradamente ao longo dos anos, e que não vejo outra forma de tratar isto senão como uma questão moral. Moral, por que Honório existiu mesmo. Moral, por que é mais importante, útil, a frieza da razão e os bons exemplos, do que a preguiça, lassidão, e… apoucamento.

Um frade capucho de Sintra por Marianne Baillie em 1821

Frei Honório e os Homens Pequenos - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

    O que a história nos diz é que frei Honório viveu numa cova – ainda hoje assinalada, se bem que aterrada – durante cerca de 16 anos. Entre muitas coisas que nos conta – curiosas! sem dúvida – relata-nos uma vez em que Honório saiu com um irmão seu, para irem pedir esmola ao Penedo. Mas pouco depois de saírem do Convento, quando chegavam à Mata das Avelãs – lugar perdido da Serra de Sintra que no século XX, 400 anos depois, aparecia nos mapas com o mesmo nome –, viram no caminho aparecer uma mulher. Honório sentiu algo, e apenas olhando a mulher, lhe disse “Não tens que me vir com enganos, porque eu bem te conheço: olha para ti, isto basta.” Fez o sinal da cruz, apareceu uma cruz em labaredas num rochedo e a mulher desapareceu. A partir desse dia, sempre que se dava um fogo na Serra, quando chegava àquele lugar extinguia-se de divina forma.

 

    Não creio ser possível olhar para o que a história enquanto História nos legou através do que um dos mais importantes escritos do século XVIII nos mostra, e depois olhar para a lenda que o povo foi contando e cantando, e não sentir que… é realmente um apoucamento, engraçado e pequenino, mas que na realidade, só embacia o brilho do que mais belo a história vivida tem.

Frei Honório e os Homens Pequenos - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

"São Francisco em Meditação", por Francisco de Zurbarán em 1635-1639

    O mesmo se foi passando com muitas outras coisas, sendo as gravuras desta página também demonstrativas disso mesmo: encontramos um São Francisco por Zurbarán, digníssimo; encontramos uma recriação de um capucho por Seymour Haden, digno e dedicado; encontramos uma possível recriação de William Burnett, pitoresca; encontramos um capucho tirado do real por Marianne Baillie, gordinho, amarrecado, com tanto de confiável como a sua postura o transmite – não creio que as posturas das pessoas falhem por muito naquela mesma de espírito que essas têm para com a vida.

    Temos muito a ganhar com a nossa história. Ela engrandece-se por si, por aquilo que foi. E nós engrandecemo-la, por a sentirmos e dela falarmos. Os aligeirares que normalmente terminam em “inhos”, apenas lhe tiram lustro; e temos tanto por desvelar! Espero apenas que um dia a cova de frei Honório no Convento dos Capuchos possa ser desaterrada – de acordo com as descrições existentes – e que o lugar, já de si tão importante espiritualmente, se possa tornar um ponto de romaria para quem através dos homens do passado, queira mais admirar o Divino.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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