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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

Isolados na Serra
(2ª Parte)

Isolados na Serra (2ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 22 de Novembro de 2019

    Repare: ainda estamos no Outono e o frio que nos acossa faz-nos somente pensar em encontrarmos um recanto quente. E isso tendo todas as roupas tecnologicamente avançadas que hoje temos. Em casa – nas casas portuguesas, que são ambivalentemente más para Inverno e Verão – aqueles que têm aquecedores ligam-nos, aqueles que têm lareiras acendem-nas, mas tudo isso é apenas como uma rala esfera luminosa da fraca luz de uma vela numa imensidão escura. O tempo que as casas levam a aquecer é longo, e o tempo que levam a que o quente se dissipe é curto. Tenho estado só a falar dos nossos dias, sim. Mas olhemos agora para trás de nós, lá ao fundo na distância.

 

    O interior dos sapatos com palha para os tentar tornar mais quentes, os caminhos enlameados, as roupas ensopadas e as abas dos chapéus dobradas perante a força da chuva, ou as gorras encharcadas. A maioria das pessoas não tinha acesso à variedade de mudas que nós temos hoje, nem com a mesma rapidez as secavam (tal como não as lavavam com a mesma frequência); e um luxo já era poder lavar a roupa em água a ferver (aquela que assim era possível lavar) ao invés de a bater contra pedras ou bater-lhe com um pau para a sujidade sair.

A Penha Longa (com vista para o Penedo dos Ovos (o rochedo mais empinado)), ano de 1860

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    Tudo isso mostra-nos um enorme desconforto por nós hoje assim percepcionado. Assim percepcionado devido a todos os luxos que temos e que não valorizamos. Mas note, note! Estive sempre a referir o homem comum, não estive a falar do... Olhe, por exemplo, imagine isto: Convento dos Capuchos, final dos anos de 1500, início dos anos de 1600. Espere, os hábitos que os frades ali utilizavam não eram constituídos por mais do que uma peça têxtil. Nem por uma só. Os hábitos que ali usavam, as vestes que ali cobriam os seus corpos eram formadas apenas por remendos de panos velhos todos cosidos uns aos outros. Mas ainda assim – mesmo que sendo no meio de rochedos – continuo a falar de alguém que ainda tinha/vivia, com condições de habitabilidade, fossem elas duras como eram.

 

    Outra coisa é... Quando... Nós olhamos para o passado e vemos pessoas, seres humanos, que abandonavam essas coisas do passado que referi e que a nós hoje já nos custam imaginar, e faziam-no para irem viver no meio da natureza, entregues nas mãos das intempéries aos desígnios de Deus. O mais comum era não terem mudas de roupa, era as suas roupas serem igualmente fracas (querendo estes dois pontos dizer que a lavagem da roupa ou era inexistente ou a inutilizava em menos de nada), mas era importante terem água por perto, pois na sua simplicidade essa é o elixir da vida. Depois, o fogo que faziam – quando o conseguiam ou não se importavam de o fazer (por já ser esse um luxo) – não era produzido em segundos como nós hoje o fazemos. Aquecer água requeria uma logística demorada, que começava no apanhar lenha (ou ir buscar a que já se tinha apanhado) e passar pelo teste de fogo (aqui até ganha vários sentidos): conseguir, com muito esforço num tempo normal, acender uma pequena-pequeníssima, ínfima brasa, que permitisse atear fogo nos ramos mais pequenos e porosos (que deveriam ser aqueles que no “coração” do preparo da fogueira se deviam encontrar). Não sei se se apercebeu, mas eu referi tempo normal. Imagine aqui na Serra nestas manhãs húmidas de nevoeiro, em que mesmo dentro de algumas casas a humidade alastra sobre tudo. Com estas condições, dormir dentro de uma cova na terra ou entre rochedos, era já um grande aconchego.

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O claustro do Mosteiro de Penha longa no final do século XIX

    Era igualmente conveniente existir nas proximidades um caminho de passagem onde pudessem pedir comida em caso de necessidade. Aqui, na Serra de Sintra, dois dos focos de eremitas que surgiram nos anos de 1300 assim o fizeram: um deles próximo do importante caminho Cascais-Sintra (onde temos hoje a estrada do Linhó que nos leva até ao Ramalhão); o outro, entre as igrejas de São Pedro e Santa Maria (zona que então borbulhava com a religião), junto a uma das entradas que nos levava para a Vila de Sintra.

O abandonado Mosteiro de Valparaíso, em Córdova (Espanha), fundado por um eremita da Serra de Sintra. Fotografia de José Carlos Cabello

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    Nenhum destes dois focos terá começado com um indivíduo apenas, mas ambos os focos guardam curiosidades que nos podem hoje fascinar. A figura principal do foco da zona Sul da Serra (aqueles que próximos estavam do caminho Cascais-Sintra e que tinham perto de si igualmente uma feira (medieval, no verdadeiro sentido do termo)) quando, décadas antes, estava na adolescência, decidiu partir para o Norte de Itália para se tornar seguidor de um guia espiritual da Igreja Católica. Foi depois quando regressou à Península Ibérica – com muitas aventuras pelo meio – é que se veio instalar numas covas aqui na parte Sul da Serra de Sintra. Foi por esses anos que o Mestre de Avis se tornou – pelo querer do povo e pela sua grandiosidade – no Rei D. João I. E foi também por esses anos que umas boas casas aqui na Vila começaram a passar por obras significativas. O Rei vinha cá de vez em quando ver como as obras estavam a decorrer. Percebemos que na década de 1390 elas muito provavelmente começaram a ficar concluídas, pois ao longo desses dez anos o Rei vai assinando com uma frequência cada vez maior documentos reais em Sintra. Devo também dizê-lo: o que surgiu no fim foi aquele que passou a ser conhecido como o Paço Real de Sintra (o actual Palácio da Vila), e terá sido igualmente quando surgiram as duas grandes chaminés cónicas. Só que nesses tempos as chaminés destacavam-se ainda mais por estarem então completamente expostas ao vale (que hoje dá para a Volta do Duche e que então dava apenas para colinas arborizadas), e também por fumegarem, por se poder então ver fumo negro a sair dos seus topos, como se a Vila de Sintra estivesse mais viva.

 

    Não se conhecem os contornos exactos com que o Rei D. João I ficou fascinado com aqueles eremitas, mas o que é certo é que ficou. E ficou a ponto de ter contribuído monetariamente para que aqui, na zona da Serra de Sintra voltada a Sul, surgisse, através daqueles eremitas, o primeiro mosteiro dos Jerónimos (Ordem de São Jerónimo) no Reino de Portugal: o Mosteiro de Penha Longa (onde temos hoje o Penha Longa Resort, com entrada situada em frente à Lagoa Azul).

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A vista (com o Mar Mediterrâneo ao fundo) que Frei Vasco teve após ter fundado o Mosteiro de Valparaíso. Fotografia de José Carlos Cabello

    O eremita principal – digamos assim –, aquele que na adolescência partira para Itália, era conhecido como Frei Vasco. E apesar do Mosteiro de Penha Longa ter surgido através de Frei Vasco, este não ficou por aqui até ao fim de sua vida. Este eremita de São Jerónimo viu-se incumbido da missão de ir até à Sierra Morena – a Norte de Córdoba, Espanha – para aí num vale fundar o Mosteiro de Valparaíso. Quem, nos dias de hoje saia de Córdova pela Carretera Palma del Rio (A-431), se antes de chegar a Higuerón olhar para a direita, verá por momentos, num recôndito vale da Sierra Morena, o antigo Mosteiro de Valparaíso, fundado por um eremita da Serra de Sintra. No próximo livro (o qual se encontra no prelo) irá ficar a conhecer mais sobre tudo isto, incluindo as visitações que Frei Vasco teve.

 

    Mesmo de tudo por alto falando, não consegui ainda abordar o outro importante foco de eremitas da Serra de Sintra, o qual também surgiu nos anos de 1300. E mesmo que se leve uma vida quase eremítica, o que há para fazer e por falar tomaria – no concretizar de todos esses desejos – muitas vidas, certamente sem que nunca se chegasse ao fim por esse se ir modificando. Mas o outro foco de eremitas ficar-lhe-á à distância de algumas semanas.

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