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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

Isolados na Serra
(3ª Parte)

Isolados na Serra (3ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 20 de Dezembro de 2019

    É Natal. É Inverno. Na verdade, está mesmo muito frio. As cores em volta mostram-se numa resistência das folhas, da folhagem que ainda resiste ao Inverno. A própria natureza encarregou-se de escolher as espécies que, durante os meses em que os amantes dissolvem a melancolia ao amarem-se, mais conseguem resistir, mais conseguindo também encantar.

 

    Há pouco fui ao terraço e – desta vez sem remorsos – deixei abandonado o trabalho mais minutos do que aquilo que devia. Sendo Natal, sendo Inverno, com a felicidade das famílias que nesta época têm uma oportunidade maior de mostrar o seu amor, quando as folhas que subsistem fazem anelar auréola de padrinhos no jurar de eternos amores, vi a natureza nos ares a mostrar-se em todo o seu esplendor. Um falcão permaneceu aqui nos céus em deslizares intercalados por frenéticos bateres de asas nas alturas, perseguindo sempre, no seu querer, no inevitável perder de vida de uma desejada presa, um dos pombos que se distanciava do seu bando. E havia sempre um ser, frágil, vulnerável, um fácil alvo, que se distanciava do seu bando.

 

    Seriam esses que eu vi sempre mais afastados, a ovelha negra do bando? Estaria na sua génese manterem-se à parte? Teria sido uma escolha voluntária? Ou apenas o involuntário desígnio deixado pelo universo que o entrelaçar de ambos os casos se unirem numa improvável hipótese?

Um frade trinitário de Sintra (do Convento da Trindade da Serra de Sintra) desenhado na década de 1820

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    Após cerca de um quarto de hora, após muitas razias e livres deslizares nos céus, o falcão decidiu seguir um rumo que o levou dos céus de São Pedro para as nuvens da Vila.

 

    Apesar de maravilhado com esta expressão da natureza não pude deixar de pensar na crueldade do que a natureza nos designa. Veio-me então um odor férreo de sangue, memória em mim impregnada de quando era pequeno e, no patamar em que eu vivia e que servia também de oficina a um ourives – em plena Baixa de Lisboa –, um seu ex-aprendiz tentou assassiná-lo. O chão, com poças desse humor da vida, deixou-me então marcado na memória – entre outras cenas correspondestes a essa circunstância e que aqui, neste momento, não valem a pena falar – uma impressão da natureza universal, da natureza animal, da natureza humana.

 

    O que terá levado a essa tentativa de homicídio? O que terá levado o falcão a perseguir a sua presa? O que terá levado o Natal, o doce Natal que para nós assim se apresenta, a ser como é? O que leva alguns de nós a desejarmos estar sós?

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Já depois de passar o rosado corpo de pedra e olhando-o para trás, a caminho da Igreja de Santa Maria: o Convento da Trindade, mas numa construção posterior e numa zona mais aberta do vale (e mais distante da ermida de Santo Amaro)

    A crueldade. a sensibilidade, o instinto e a complexidade – a enorme complexidade do amor, o qual não pedimos para com ele nascer – levam, levaram, levarão sempre, alguns seres humanos a isolarem-se. E, em certas circunstâncias – fase da vida, fase do ano, fase do mundo – alguns seres humanos sentiram-se na necessidade premente de tudo abandonarem para a Deus, ao Universo, à vida para se entregarem àquilo em que acreditavam.

 

    Na parte mais fechada de um vale que em sombra descia das colinas do Castelo de Sintra e da localização da ermida de Santa Maria da Pena (actual Palácio da Pena) e se ia lentamente abrindo e clareando, encontrava-se, há quase setecentos anos atrás, uma ermida. Nesses tempos, a cada 15 de Janeiro dirigiam-se as pessoas até esse escuro vale para cultuarem a invocação dessa ermida: Santo Amaro. Nesse mês frio, o povo usava os seus mantos e capas sobre as roupas de cores apagadas, tentando proteger-se como podia com as peles de cordeiro e de cabrito. Aqueles que de suas janelas, com o quente das lareiras por trás, miravam os que lá em baixo nas ruas enlameadas passavam, trajavam cores mais vivas e peles mais “requintadas”. Um dos que lá em baixo certo dia passou, acabara de sair de um convento no centro de uma Lisboa medieval e pôs-se a caminho desse sombrio vale na Serra de Sintra. Crê-se que seria o ano de 1374 e o seu nome era Álvaro. Com ele chegaram também dois Joões. Fugiram à crueldade da vida na cidade, e tentaram entregar-se a Deus através de uma vida eremítica na ermida e nas grutas daquela área da Serra.

Perspectiva do vale para a parte do Convento (na sua versão mais distante da ermida de Santo Amaro) que se esconde dos transeuntes

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    Frei Álvaro começou então a levar uma vida com condições diferentes das condições que poderia em sua vida ter. Afinal de contas, seu pai era o Conde de Arraiolos. Além do mais, este Conde de Arraiolos era irmão de Inês de Castro. A Inês de Castro. Este eremita que aqui na Serra viveu era assim sobrinho de Inês de Castro.

 

    Um dos Joões que seguiram Frei Álvaro, o João de Évora, mesmo tendo vindo do mesmo convento que Frei Álvaro, tinha sido um dos celebrados mestres da universidade naquele tempo. Diz-se que não era menos perito na teologia mística... Já o outro João, o João de Lisboa, veio igualmente do mesmo convento e frequentou a universidade. Deste João de Lisboa é dito que se tinha ocultado ali, naquele vale, entre os rochedos e concavidades, ficando assim escondido do mundo, entregue somente às mortificações e penitências. Mas... apenas até a Rainha D. Filipa (esposa do grande D. João I) ter ouvido falar nas suas virtudes e ter decidido retirá-lo do seu escape para a natureza, tomando-o como seu confessor. Frei João de Lisboa teve assim voltar para próximo do desassossego da corte. Por vezes quanto mais se procura fugir a algo, mais esse algo nos encontra.

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O ambiente de hoje, próximo da Trindade, a evocar o ambiente de quando aqueles homens viveram por entre o nevoeiro, em grutas e rochedos

    E não pense que Frei João de Évora se escapou. Também o Rei D. João I o quis tomar para seu confessor. Não foi somente a agitação da corte que João de Évora encontrou. O Rei chegou a torná-lo Bispo de Viseu. E não somente isso: João de Évora foi também naquelas embarcações que se dirigiram a Ceuta para a conquistar, empresa na qual D. Duarte foi armado cavaleiro.

 

    E nos anos de 1400 – quando o Paço Real de Sintra já estaria concluído – Frei Sebastião de Menezes costumava acompanhar as vindas do Rei D. João I a Sintra. Vendo também (“também”, não esquecendo os eremitas de Penha Longa na 2.ª parte desta série de artigos) estes homens que aqui entre os rochedos viviam, Frei Sebastião começou a tentar influenciar o Rei para que este levantasse ali um convento, para que ficassem aqueles protegidos das calamidades do tempo em Serra tão áspera. Começou então a ser construído um convento junto da ermida que inicialmente lhe falei, junto daquela ermida para a qual as pessoas a 15 de Janeiro se dirigiam, por ser o dia de Santo Amaro. Essa zona era a mais fechada do vale, a mais sombria. E foi aí que foi levantado o primeiro Convento da Trindade da Serra de Sintra, surgido da necessidade destes homens se afastarem da crueldade humana para se unirem à crueldade cega da natureza, que traz sempre consigo a suave voz de Deus quando os tempos difíceis passam. Estaria na sua génese manterem-se à parte? Teria sido uma escolha voluntária? Ou apenas o involuntário desígnio deixado pelo universo que o entrelaçar de ambos os casos se unirem numa improvável hipótese? E quando a natureza humana dos outros nos força àquilo que contrário é ao nosso interior?

 

    Anos mais tarde diria também Frei Tomás de Lisboa, a propósito daquele isolamento: Oh! Quanto é melhor o deserto [o ermo] que a Corte? Quanto aquela [a Corte] tem de perigosa, tem este [o ermo] de seguro. Tudo quanto me podia dar, logro aqui com mais perfeição.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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