Artigos do Jornal de Sintra por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - ano de 2019.jpg

ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2019 ~

Isolados na Serra
(1ª Parte)

Isolados na Serra (1ª Parte)
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 25 de Outubro de 2019

    Somos inevitavelmente levados pela natureza. Não apenas de forma metafórica. Somos literalmente levados pela natureza quando em cinzas ou em terra nos tornamos. Mas enquanto tal não acontece, deixamo-nos levar por ela em sonhos, fantasias, refúgios onde a nossa imaginação respira quando realizamos as grandes evasões das prisões onde o dia-a-dia nos agrilhoa.

 

    Fugimos rumo a à natureza – ou os mais sãos assim o fazem – e aí, rodeados por tudo que o mundo nos deu e nos dá, sentimos o ar que nos dias que passam não percebemos respirar. E sonhamos. Para uns, esses sonhos são despojados de riquezas, sendo quase sonhos austeros; para outros são sonhos repletos dos maiores confortos onde ali, na natureza, se magica um secreto início o qual, sem ninguém saber, nos levará a sorrir, tendo no bolso a memória do ritual quase cabalístico que tudo que em sonho e entre risadas viveremos, começou.

 

    Mas tudo isso não passam de devaneios modernos. Devaneios de quem vive aprisionado com correntes invisíveis. Ocorre-me a expressão “aprisionado em seu tempo”; mas em qualquer tempo cada homem vive a esse aprisionado. Se contudo compararmos com o passado, perceberemos que há séculos tão distantes como os pergaminhos desfeitos iludem a nossa imaginação, o homem procurava coisas diferentes das que hoje procuramos, e que passavam sobretudo pela sua entrega a Deus, pelo seu encontro com Deus, apenas e tão só – tal como nós hoje – para se sentir bem. E não só procurava coisas que para a maior parte dos comuns hoje são diferentes, como procurava o seu ninho na natureza. Mais lhe direi: procurava a fuga à confusão citadina. E perguntar-me-á: mas que confusão, se hoje é que vivemos confusão a sério?

Fragmento de gravura de Domingos Schioppetta, do final da década de 1820. No topo dos cumes vêem-se o Castelo dos Mouros e o Mosteiro da Pena. Entre os dois, um vale – que para nós, não se encontra na gravura visível – que tinha a meio algumas ermidas que acolheram ermitões

Os Directores Espirituais - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 5 II.

    Como em tudo na vida, a relatividade está presente. E se é verdade que um homem do passado não aguentaria o que hoje vivemos, também dificilmente um homem séculos antes de 1800, ou de 1500, ou de 1300, suportaria o que os homens em seu tempo viveram. Nos anos de 1800 a confusão em Lisboa era tremenda. E se calhar até peguei num exemplo não tão funcional, pois duvido que a maior parte dos hoje aqui presentes aguentasse os cães, os cadáveres a arder, as ruas imundas com pó, as dormidas em bons hotéis com o acordar de um corpo todo mordido por insectos, entre tantos outros desconfortos desses anos de 1800.

 

    Desgraçado. Diz um periódico de Sintra (Portugal) que foi há dias apresentado na autoridade local daquela povoação um súbdito espanhol que, atacado de uma singular monomania religiosa, divagava pela Serra de Sintra, tendo construído uma cova para a noite; comia somente castanhas cozidas e dormia em cima de umas ramas de pinheiro.

Gil Vicente e Sintra (3ª Parte) - Miguel Boim - O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra

Um gaiteiro do século XVI, espírito da época e contrastante com quem do mundo se tentava isolar. Gravura presente na Copilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente (...)  Vam Emmendadas Polo Sancto Officio, edição de 1586. Biblioteca Nacional de Portugal

    Ainda o Parque da Pena não estava plantado, ainda nem sequer existia a Rampa da Pena, podíamos ler em castelhano a notícia que aqui transcrevi (ressurgida nos dias de hoje no Sintra Lendária). Para os espanhóis deve ter sido curioso saber que um seu patrício – nesses anos de 1800 – se tentou isolar do mundo, com aquela sua monomania religiosa e divagando pela Serra de Sintra. Este exemplo, se anedótico – é certo –, é também demonstrativo do desejo da evasão que antes aqui mencionei. O capacitar, à medida que a idade vai avançando, que somos uma ilha entre os demais, deixando para trás todas as sentimentais memórias de que outrora fomos um, com quem nos gerou, não é suficiente para nos trazer felicidade, ou para nos fazer cumprir enquanto seres humanos. E nem é preciso a idade avançar, eu próprio quando adolescente isolava-me na Serra de Sintra durante dias (era a Serra então tratada de forma muito diferente do que com o cuidado que agora é).

 

    No passado, o homem procurava somente as respostas em Deus, e a comunhão com a natureza era a comunhão com Deus. A entrega de si próprio à natureza era uma mais pura entrega de si próprio nas mãos de Deus. Para isso tinham de existir certas condições, como uma cova ou gruta em que se encontrar algum abrigo, água nas proximidades, e um caminho de passagem onde em caso de extrema necessidade se pudesse ir pedir comida. Os homens que isso fizeram antes do primeiro milénio se concluir, tentavam viver apenas de plantas e raízes; estes, estes de que agora falo, já eram mais cuidados.

Gravura do ano de 1838 da autoria de Manuel Maria Bordallo Pinheiro, representando a entrada principal no Mosteiro da Pena, onde antes se encontrava a ermida de Santa Maria da Pena, e onde hoje temos o Palácio da Pena

Frei Heitor Pinto - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 3..jpg

    Durante o Verão e o Estio (para os nossos dias deveremos ler, com a mesma sequência, “Primavera e o Verão”, segundo as denominações de então) recebiam visitas de curiosos, que iam ver como aqueles homens viviam. Eram bastante incomodados, mas depois habituavam-se a isso de uma maneira suficiente para que depois se queixassem que no Outono e no Inverno ninguém os visitava por causa do frio. E, claro, queixavam-se também daqueles que tendo o desejo de também levar aquela vida, começavam-na no Verão ou no Estio, e quando chegava o Outono ou o Inverno, mudavam de ideias.

 

    Existe ainda uma outra curiosidade. Certamente já ouviu falar no termo eremita, assim como já ouviu falar no termo ermitão. Para a maior parte das pessoas no nosso país ambos os termos representam o mesmo; mas se atentarmos à História perceberemos que têm significados diferentes, sendo que o eremita vive no e de um ermo, e o ermitão por norma vivia e cuidava de uma ermida. Isto teria muito mais a dizer, e muito mais o digo no meu próximo livro. Mas ficando por essas expressões, o primeiro exemplo dessas vivências que cá na Serra de Sintra temos em termos de anotações, é precisamente na parte mais Oeste da Serra, na Peninha. A ermida de São Saturnino (a que fica na base do monte) terá sido doada pelo Rei D. Sancho I (filho de D. Afonso Henriques) a um indivíduo cuja designação em latim nos mostra um Pedro, eremita/ermitão de Sintra. Este Pedro terá ficado a viver e a cuidar da ermida de São Saturnino, ermida para o Atlântico voltada na base do monte da Peninha.

Lobos - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 5..jpg

O Bestiário de Aberdeen referia que para o caso de algum lobo alguma vez roubar a voz a um homem simplesmente ao olhá-lo nos olhos, a única forma de recuperá-la, de quebrar o encantamento, era o homem despir-se e bater com duas pedras uma na outra. Iluminura daquele que é conhecido como Bestiário de Rochester (Londres, British Library), elaborado entre os anos de 1230 e os anos de 1300, quando já muitos eremitas e ermitões tinham olhado lobos nos olhos aqui na Serra

    Nos anos de 1200 encontramos mencionada pela primeira vez num escrito, a ermida de Santa Eufémia. A ermida de São Eufémia fica nas “traseiras” do Parque da Pena, com acesso feito a partir do largo da Feira, em São Pedro. Quer isto dizer que cada ermida albergava um ermitão? Não necessariamente, ou pelo menos, não como sistema. Ao pé de Santa Eufémia encontrávamos também a ermida de Santa Maria da Pena (onde temos hoje o Palácio da Pena) e, pelo menos dois séculos mais tarde, essa ermida tinha um ermitão. E de novo surge a mesma pergunta: teria cada ermida um ermitão nessa vivendo? E de novo a mesma resposta: não se sabe. Mas repare nesta curiosidade: se nos anos de 1600 a Serra de Sintra tinha mais de duas dezenas de ermidas, e se imaginarmos que muitas dessas já existiam nos anos de 1500, e que muitas dessas teriam um ermitão, mesmo que a Serra estivesse mais entregue a lobos, veados e javalis, toda a montanha teria uma vida diferente daquela que alguém pode supor.

 

    O colocarmos, na nossa imaginação, um eremita na natureza e um ermitão numa ermida, ambos isolados – ou quase isolados – do mundo, não define aquilo que mais importante definia um e outro. Enquanto o eremita se entregava à natureza, às intempéries e incertezas, o ermitão ia viver para uma ermida onde o fluxo de esmolas e doações era destinado à ermida ou à invocação dessa, passando pelas “mãos” do ermitão, que dessas para si também uso fazia. Ou seja, existia uma diferença enorme em termos de comodismo. Uma outra forma de ver esta questão é pensar que alguns daqueles que no passado distante seguiam para frade ou para monge, faziam-no por devoção a Deus; mas muitos, um grande número, fazia-o por ser uma oportunidade de vida: ter tecto, comida, ganhar a confiança das pessoas (e igualmente a proximidade com as senhoras), entre outras coisas, era algo a não desperdiçar. E o ermitão tinha, facilmente, parte dessas coisas. Se até formos mais para trás no tempo – não apenas em Portugal mas de uma forma geral na Europa – percebemos ter existido uma enorme confusão entre a simplicidade do ermitão e o abuso de alguns desses no tentar passar por sacerdotes ordenados (padres).

 

    Uma boa coisa deste tema é que apenas de o ler, ele nos leva para mais próximo da natureza. E houve quem tivesse ido para junto da natureza da Serra de Sintra para ficar mais próximo de Deus, e por o ter feito – e por ser tão justo – teve de regressar para o meio atribulado de onde saíra, por imposição superior. Mas disso falarei na próxima parte.

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Artigos Publicados no Jornal de Sintra II.jpg

 

por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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