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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2021 ~

João Manuel e os Cornos de Cabra

João Manuel e os Cornos de Cabra
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 08 de Janeiro de 2021

    Quem foi João Manuel? Quantos Joões Manuel não existiram?

    Este era especial, e, aliás, até mesmo o uso de Dom por parte deste era especial.

   Mas não no sentido que intuitivamente lhe reconhece, não advindo de um título da alta nobreza (Duque, Marquês, Conde, Visconde, Barão, Senhor), nem advindo de mercê própria (Dom poderia ser concedido à parte de título nobiliárquico). O que o tornou especial – para além do seu enquadramento familiar –, é que foi na sua sucessão, no herdar deste Dom específico, que se geraram as tragédias em que também o Alcaide-mor de Sintra esteve envolvido, ficando na terra do Norte de África, tendo antes, durante a batalha, ficado com uma flecha atravessada no rosto enquanto lutava como bravo leão. As tragédias que também originaram a aparição do coroado, avistado em vários lugares, mas avistando-se mais concretamente a esperança de por entre nevoeiro reaparecer, trazendo um novo mundo ao interior ou ao espírito de Portugal. Mas para este fim, quanto a mim, é necessário que cada um de nós saia primeiramente da névoa em que se encontra, mostrando um novo mundo a si próprio.

    Voltando a D. João Manuel: o seu pai, figura muito conhecida na história de Portugal, teve, enquanto muito jovem, um escravo que havia nascido no Congo. Anos mais tarde o pai de D. João Manuel tornou esse escravo num cavaleiro da Ordem de Santiago – muito também devido a feitos praticados por esse mesmo escravo na conquista de um território, a par do irmão do Rei, a par do Imperador Carlos V, e a par do grande D. João de Castro da nossa Quinta da Penha Verde.

Gravura do Príncipe D. João Manuel, feita entre os anos de 1550 e 1554, actualmente no RijksMuseum (Amesterdão)

João Manuel e os Cornos de Cabra - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jorna

    O pai de D. João Manuel, que investiu esse escravo enquanto cavaleiro da Ordem de Santiago, era precisamente o Rei D. João III. D. João Manuel, além de ser filho de um rei português do século XVI, era Príncipe Real. E um príncipe devia ter a sua sagração enquanto cavaleiro, em grandes festas – ou aquilo que assim fosse encarado – ou desafios, onde pudesse mostrar a sua destreza, onde pudesse demonstrar os seus aprestos na cavalaria, em toda a nobreza e manejos que a essa estivesse ligada, como por exemplo nos ficou escrito, na nossa história e na ascendência da nossa língua através do Rei D. João I.

    As festas e desafios escolhidos, decididos para o Príncipe D. João Manuel, foram-nos contados nas palavras de Jorge Ferreyra de Vasconcellos, que poucos anos antes – pouquíssimos – era apenas um moço de câmara do Infante D. Duarte (irmão do Rei D. João III).

João Manuel e os Cornos de Cabra - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jorna

Gravura representando orlos (o bocal é a extremidade à esquerda), de uma obra literária publicada em 1532

    E aqui chegamos a um daqueles nossos momentos do presente em que pelo ambiente do passado somos surpreendidos. Para essas festas e desafios foi escolhido um conhecido lugar das proximidades de Lisboa, que naqueles anos tinha um Palácio Real e era um local deslumbrante. Esse local tomava o nome de Enxobregas. Se associou Xabregas a Enxobregas, fê-lo da forna correcta, exceptuando talvez – ou muito provavelmente –, a imagem que em sua mente apareceu, acerca do aspecto da Xabregas moderna. Nesses anos de 1540 era a zona tomada, de forma literal, como um lugar paradisíaco, onde os bergantins atracavam em águas claras vendo a poucos metros de si o Palácio Real, e onde, por detrás desse, suavemente se erguiam colinas repletas de doces bosques guardando fantasias da Antiguidade Clássica.

Um Sátiro (ou Fauno), na publicação de Hieronymus Osius Fabulae Aesopi, ano de 1564

João Manuel e os Cornos de Cabra - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jorna

    Mas o lugar não foi escolhido pelos homens que percorrem o chão de terra à qual se agarra a maior razão e lucidez. O lugar foi escolhido por um conjunto de selvagens com cabelo pelos joelhos, com cornos de cabra saindo de suas carapuças, e que foram a um outro Paço Real numa montanha de um promontório da Luna – representação à qual inevitavelmente associamos Sintra, o Paço Real de Sintra, e ainda para mais pela forma como está transcrito no livro Sintra Lendária –, e em que entrando na sua principal sala, orlos fazendo soar, anunciaram o desafio à família real.

    O dia do desafio viu-se chegado, as estruturas para as justas foram montadas, e os cavaleiros, todo o tipo de cavaleiros e suas armaduras os revestindo, foram chegando. Uns traziam sua honra para celebrar o investir do Príncipe enquanto cavaleiro, outros traziam presentes para fazer honra ao dia.

    O recontar da celebração do armar cavaleiro o Príncipe D. João Manuel, revela-nos que os maiores presentes tinham sido trazidos da Serra de Sintra. Direi antes: tinham sido capturados na Serra de Sintra. Tal se deu quando dois bravos cavaleiros portugueses se cruzaram com dois gigantes que de lá queriam para o Mediterrâneo partir. Aqui, na Serra, viram esse gigantes o seu destino riscado para serem ao Príncipe de Portugal ofertados.

João Manuel e os Cornos de Cabra - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jorna

Desenho do Mosteiro da Pena (no local do actual Palácio da Pena), feito na primeira década de 1500. Nestes anos começava a ser explícita a associação da lua à Serra de Sintra – consumada então pela escrita com “C” (Cintra) em vez de “S” –, e no século XVIII os viajantes estrangeiros escreviam – erradamente – nas suas publicações que no local onde se encontrava o Mosteiro da Pena tinha existido há muitos séculos atrás um “templo da lua”. Como se constata, promontório Luna é facilmente associado à Serra de Sintra e às extremidades dessa que tocam o oceano

    A obra, romanceando – se assim se poderá tal termo utilizar dada a profusão e transição de estilos que marca a época –, conta-nos também que os dois gigantes foram da Serra de Sintra trazidos numa águia sobre um batel, mas quando essa se aproximava de Enxobregas, uma de suas asas tocou o Tejo, fazendo com que ela se virasse, atirando os dois gigantes e os dois cavaleiros para as profundezas do Tejo. Das águas do rio emergiu apenas um dos cavaleiros, enquanto o outro perderia sua vida.

    Este recontar, tenta – muito provavelmente – transmitir-nos que um desses dois cavaleiros faleceu no afundar de uma embarcação que se dirigia para as festas de investidura do Príncipe Real de Portugal como cavaleiro. Mas apesar disso, as celebrações continuaram.

    Assim nos foi contado como no século XVI foi armado cavaleiro o Príncipe de Portugal D. João Manuel, que nunca chegou a ser Rei de Portugal, e que faleceu poucos dias antes de seu único filho e herdeiro nascer, o que motivou – enquanto o herdeiro não nasceu – grande preocupação, até porque sua mãe o carregava dentro de si com todos os riscos à situação inerentes. O filho do Príncipe D. João Manuel nasceu sem conhecer seu pai, nasceu rebelde, e é ainda hoje conhecido como “o Desejado”. O pai de D. Sebastião e Príncipe Real, D. João Manuel, viveu apenas 17 curtos anos, não sendo os suficientes para conhecer o Rei, o seu filho, que através da sua história de vida marcou nossa cultura.

    Mesmo com sua curta vida, a existência de D. João Manuel legou para a História de Sintra os dois fantasiados gigantes na Serra de Sintra caçados, assim como os selvagens sátiros anunciando justas em Xabregas, numa embaixada silvestre que teria, eventualmente, entrado pelo Paço Real de Sintra, orlos tocando.

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