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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2016 ~

Dezembro e o 
Coração de D. Duarte

Dezembro e o Coração de D. Duarte
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 16 de Dezembro de 2016

    Não era sobre isto que iria este mês escrever, mas ontem, entrando na região de Lisboa, fez o fim-de-tarde com que o meu coração seguisse este caminho, tocado pelas memórias da história.

    Enquanto o sol ia no dia fenecendo, lançava os seus pálidos raios de Dezembro cobrindo suaves montes e montanhas com aquela triste luminosidade que lembra o encanto de tempos passados e que acama o verde da terra com uma ímpar magia da vida. Da vida, mas também da morte, visto que chegamos com o solstício de Inverno ao fim e início da vida, ao fim e início das estações.

    Nessa triste luminosidade que suavemente cobre os campos e vales e traz as saudades do que se acha nunca se ter vivido, as copas verde-cinza das oliveiras, o vivo verde das folhas que insistem em resistir à morte que o Inverno consigo traz, e os grandes arbustos e as pequenas árvores, ganham um dourado magnânimo, próprio dos seres que sempre rebrilham, quer tudo em seu redor rua, quer tudo em seu redor seja por raios atingido.

    Poucas ou nenhumas vezes mencionei aqui o Rei D. Duarte. É do século XV e é conhecido como Rei Filósofo. D. Duarte reinou durante pouquíssimos anos, foram cerca de cinco, curto reinado que na corte tinha sido assim anunciado por Mestre Guedelha (astrónomo / astrólogo do Reino), por esse assim o ter percebido nos astros do céu nocturno. Nesses cinco anos de reinado o Rei andou sempre com o que se assemelharia hoje a uma espécie de caderno, onde ia tirando anotações que julgava de utilidade. Umas vezes seria o Rei por sua própria mão, outras seria pela mão de algum culto moço de sua câmara que soubesse escrever.

O Coração de Dom Duarte - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 2..jpg

D. João I (pai de D. Duarte) em gravura elaborada – através da efígie de seu túmulo – por um viajante estrangeiro no final do século XIX

    Umas vezes essas anotações versavam sobre conversas que tinha, conselhos que recebia, outras eram apenas cópias de cartas que recebia e cujo conteúdo julgava ser muito útil por a resposta às questões que tinha colocado ter mostrado mais do que aquilo que esperava com aquela conhecer.

    Muitas dessas anotações são curiosas. Uma delas, para além de curiosa, é de destaque para Sintra. D. Duarte colocou-lhe o título de Esta é a Medida das Casas de Sintra, e é graças a esta lista de itens – representando cada um uma divisão, um espaço – que conseguimos reconhecer o Palácio da Vila nessas divisões. Como conseguimos perceber também a disposição de algumas das divisões então existentes, assim como a já existência de alguns espaços então, como por exemplo a Câmara das Pegas (muito possivelmente a actual Sala das Pegas).

    A proximidade de D. Duarte a Sintra era bastante, e isso torna-se notório num episódio da conquista de Ceuta no ano de 1415. D. Duarte, então com 25 anos e apenas Infante, recebe a ordem do Rei para aguardar a entrada de seu irmão, D. Henrique, na cidade de Ceuta. Mas às tantas o Rei apercebe-se de que, desrespeitando sua ordem, o herdeiro do Reino já se encontrava na praia ao lado de seu irmão D. Henrique. A meio da batalha que decorria no meio das ruas de Ceuta, João Afonso encontra os irmãos Infantes e, levantando sua cabeça, lhes diz: Senhores, parece-vos que são estas assaz de honradas festas para o dia da vossa cavalaria [nota: serem armados cavaleiros]. Melhor me parece, que vos vejo ora onde estais, que de vos ver nas lógias frias de Sintra, provendo assentamentos do Reino.

Perspectiva do Palácio da Vila desenhada nos primeiros anos de 1500, guardando suas "lógias frias"

O Coração de Dom Duarte - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sintra - 3. II.j

    Lógia é uma galeria aberta, podendo ter cobertura e arcos ou arcadas. João Afonso queria assim dizer que ali na batalha gostava de ver os infantes, muito mais do que nas frias galerias de Sintra, e muito possivelmente – aludindo precisamente ao Palácio da Vila – despachando diplomas e documentos legais. Certo é que foi com o calor que se opunha às lógias frias que D. Duarte foi armado cavaleiro em Ceuta, conquistada a cidade.

    O pai de D. Duarte, que tinha tentado resguardar o herdeiro do Reino na conquista de Ceuta, era o Rei D. João I. Este teve uma íntima relação com Sintra e fez com que o Palácio da Vila ganhasse uma configuração aproximada daquilo que hoje podemos ver e sentir ao percorrer os seus corredores. D. João I e D. Filipa de Lancaster deram também origem àquela que foi denominada por Camões como a Ínclita Geração. Um dos filhos do casal real que fez parte dessa mesma Ínclita Geração foi precisamente aquele que tinha um caderno no qual ia anotando as coisas que achava serem de utilidade ou importantes para memória futura: o Rei D. Duarte.

    Esta pálida luminosidade de Inverno cheia de um encanto de tempos passados faz-me lembrar uma carta escrita por D. Duarte, que o próprio deixou anotada no seu caderno. É uma carta escrita após a morte de seu pai, o Rei D. João I. Curiosamente, D. João I morreu em 14 de Agosto, data que também celebra a sua vitória em Aljubarrota, e data que (erradamente) o cronista dos séculos XV e XVI, Rui de Pina, assume como também tendo sido a do seu nascimento. O título da carta que D. Duarte anotou no seu caderno tinha o nome de Da Maneira que el-Rei D. Duarte e os Infantes seus irmãos se haviam [nota: “se relacionavam”, “tinham em conta”] com el-Rei D. João seu pai.

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Uma das figuras dos Painéis de São Vicente (expostos no Museu Nacional de Arte Antiga), por alguns interpretada como representando D. Duarte

    Posso dizer que esta carta é dos documentos mais bonitos e tocantes que a nossa história de Portugal tem, evocando o amor entre filho e pai, ambos com directa relação com Sintra. D. Duarte dirige-se na carta aos Infantes seus irmãos e começa a relatar como o pai era sentido por seus filhos, como esses o viam, como esses o tratavam, assim como todo o imenso respeito que lhe tinham e cuidados que tinham para com a sua opinião, mesmo que a deles fosse contrária. Esta é uma carta que, em seu sentido – e sentir –  harmoniosamente inserida na teologia do tempo, tem o poder de nas suas simples palavras comover, por da lembrança do que vi e senti (palavras de D. Duarte) conseguir seiscentos anos mais tarde tocar-nos. D. Duarte, o Rei Filósofo, chega a escrever em sua enorme sensibilidade que a secreta câmara do Coração [de seu pai] era guardada de toda a tenção (...) que ter não devíamos...

    Esta época do ano em que nos encontramos, para além de ser muito bonita, é também muito difícil para muitos. Se as saudades do que se não sabe ter vivido magoam de saudosa forma, já não se pode dizer o mesmo em relação às mágoas que esta época festiva, por ser tão bela, também evoca. Mas é bom sabermos da existência de exemplos e seres como filho e pai que D. Duarte e D. João eram, e do amor que se tinham. Não nos legaram apenas a beleza que nós encontramos nas suas palavras e nas lógias frias de Sintra. Legaram-nos também um dos maiores exemplos de amor. Um Feliz Dezembro.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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