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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2016 ~

Corte na Aldeia

Corte na Aldeia
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 30 de Setembro de 2016

    A integridade marca a regular cadência com que as pessoas se mantêm fiéis a algo do seu carácter. Normalmente a integridade é tida per si como algo positivo. Mas convenhamos: a estupidez é capaz de ser das capacidades mais íntegras que existem, pois quando é usado por alguém, é-o sempre, de forma constante e repetida.

    Dos princípios também podemos tirar semelhante conclusão. Maioritariamente são tidos como positivos, quaisquer eles que sejam. E de novo convenhamos: tanto o cavaleiro como o vilão – este último aqui como vindo do corrente vil – têm princípios que divergem ou para o bem de todos, no primeiro, ou para o próprio bem fazendo uso do mal, no caso segundo.

O Pastor Peregrino – escultura de Pedro Anjos Teixeira (década de 1950) retratando Francisco Rodrigues Lobo

Corte na Aldeia (Francisco Rodrigues Lobo) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal

    Viver num mundo em que a integridade, os princípios, o carácter, são estandartes de quem quer conquistar algo tendo suas segundas intenções sigilosamente sempre presentes, torna-se confuso para os giróvagos que por todo o lado vagueiam, vagueando por vaguear.

    Nos anos de 1400, D. João I, e depois seu filho, o Rei D. Duarte – O Filósofo –, já nos seus escritos davam indicações sobre como o homem deveria cuidar do seu próprio sentir, cuidando também daqueles que o rodeavam. O próprio D. João I – o Rei das grandes reformulações que transformaram o Palácio da Vila em muito do que se pode ver hoje – deixou escrita uma expressão que, embora seja hoje subtilmente diferente, já então era usada: ...que diz o exemplo, diz-me com quem viveste, e dir-te-ei que manhas tendes...

    Mas é no século XVI, já no final do século XVI, que numa Europa de um homem mui mais refinado, como sendo produto do Renascimento, surge – através de Baldassare Castiglione – o livro O Cortesão. A opus magnum de Castiglione define, marca, um estilo que iria perdurar nas centúrias vindouras, fazendo com que o homem do Renascimento fosse mais refinado nas suas maneiras e, especialmente, no mostrar dessas.

Corte na Aldeia (Francisco Rodrigues Lobo) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal

A gravura mais divulgada como representando Francisco Rodrigues Lobo

    Aliás, surgem por esses anos e até mesmo no século XVII, na Europa, muitas obras dentro do género que Castiglione fez surgir.

    Houve uma obra, contudo, que pelo menos quanto a mim se demarca de todas as outras nas quais ela se insere. A razão nem é pelos diálogos dessa, que decorrem nos anos de 1600 em noites de Inverno, se darem dentro de algumas casas sitas perto da cidade principal da Lusitânia e com igual distância ficando situada à vista do mar oceano, fresca no verão, com muitos favores da natureza... A razão é ter sido escrita pelo coração e sentir que o fez: Francisco Rodrigues Lobo; e a sua obra é entre nós conhecida como Corte na Aldeia (e Noites de Inverno, como no título original).

    A dúvida sobre onde se situarão os diálogos, as conversas, presentes neste livro do ano de 1619, ainda paira no ar. E sempre pairará. Mas tudo aponta para que seja Sintra, embora ao longo dos anos muitos tenham falado em diversas outras localizações. E para além do que já mencionei, de ficar perto da cidade principal da Lusitânia, numa conversa D. Júlio faz uma longa e intensa descrição acerca de uma formosa peregrina que com seus cabelos faz até perder ao sol a sua formosuraD. Júlio conta que se dá isso numa manhã em que, achando-a de caça, se foi ele por detrás da nossa Serra, alongando-se para a parte do mar um grande espaço de caminho… O que ajuda a definir ainda mais o sentido de Sintra ser a aldeia na qual esta corte assenta.

Volavit in Lucem – “[Ele] Voa na Luz” – gravura presente na obra Éclogas, de Francisco Rodrigues Lobo, do ano de 1605

Corte na Aldeia (Francisco Rodrigues Lobo) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal

    É uma aldeia representativa do recolher dos nobres portugueses aos seus resguardados recantos na terra, aquando do comando, governo, espanhol no Reino de Portugal. Esta é uma aldeia onde as personagens falam dos hábitos mais refinados, e que sendo guardados entre as páginas do livro de Francisco Rodrigues Lobo, o desejam também ser como modos dos portugueses (salvo onde se usar a diferente cortesia dos estrangeiros, diz o Prior a determinada altura, ficando tudo o resto para a cortesia dos portugueses).

    Mas como já disse, existiram outros autores nos séculos que se seguiram que escreveram obras do mesmo estilo. Como por exemplo Francisco de Portugal, com o seu Arte de Galantería. Só que como nesse exemplo podemos observar, todos acabam por enfatizar, por realçar, como as coisas parecem aos olhos dos outros, ou como querem parecer aos olhos dos outros – doença tão corrosiva entre os portugueses, coberta sempre por um ouro que, a quem tenha coração para o sentir, imediatamente lhe reconhece valor inferior a latão. Em Corte na Aldeia, Francisco Rodrigues Lobo realça sempre, de forma subtil e muitas vezes imperceptível, o realce que o próprio deve ter para si próprio, em detrimento do que os outros pensem; o agir mais adequado para os outros, pelo que os outros – sem excepção, mesmo os contrários que mal lhe queiram – o merecem; e tudo, de tentar ser tão útil e bom ao mundo de Deus, fará com que todas essas cortesias lhe bastem para que o espírito, o seu sentir, seja rico como nunca os seus bolsos e arcas conseguirão riqueza essa alcançar.

    Em muitos dos diálogos destas personagens encontramos até as coisas mais simples dos anos de 1600 e que ainda hoje são por nós sentidas. Como quando temos alguém bem junto de nós, que a cada palavra vos pega do cinto, ou travando-vos do braço [agarrando no braço ou no cotovelo para chamar veementemente a atenção] vos molesta. E outros até que tão desatinados, que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem. Todas aquelas contemporâneas invasões do nosso espaço que pensamos outrora não terem existido.

Corte na Aldeia (Francisco Rodrigues Lobo) - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal

Gravura presente na edição de 1649 de Corte na Aldeia, em símbolo igual a outro que se encontra gravado no exterior do Paço Real de Sintra

    E todo este falar, recolhido num tempo de domínio espanhol, guardado nesta Corte na Aldeia para que o mais refinado viver dos hábitos portugueses – mais de cortesia do que de corte, embora essa dicotomia se encontre sempre presente ao longo do livro – sobreviva, e tendo sempre presente que só o honrado é filho de suas obras, e se pode chamar honrado por si mesmo, sem por roubo, empréstimo ou herança se chamar nobre; porque os que de nascimento o são, e pelas armas o merecem ser, assim honram a seus passados, melhoram e obrigam a seus descendentes. E os que de princípios humildes chegaram por seu braço a merecer títulos, grandezas e senhorios, dão feliz princípio a sua família, e também a Reinos, Potentados e Casas, que os ficam em seus sucessores eternizando

    O que torna tudo mais belo é todo este ideal de menos incomodar com a sua presença no mundo e agir pelo melhor desse, ter – ainda que nunca mencionando seu nome directamente, mas deixando todo o seu ar – como cenário, o ambiente desta formosa e fresca Serra…

    Há por hábito repartir, decompor, enumerar esta obra de Francisco Rodrigues Lobo, havendo até quem já tenha estranhado o se lhe atribuir a descoberta de uma sua carta com conteúdo erótico; o bizarro é o desequilíbrio com o qual se toma algo tão natural ao ser humano como estranho, em quem espelha inteligência. Ou poderão ser apenas resquícios daqueles que vivem do parecer bem e que por norma desajeitados mal parecem no mais fogoso campo do amor.

    No livro Sintra Lendária é possível encontrar uma outra carta em que Francisco Rodrigues Lobo descreve uma sua visita ao Convento dos Capuchos, em finais de 1500 ou inícios de 1600. Algo a não perder. Fica uma leve dor de tanta vontade ter de explanar esta Corte na Aldeia, podendo aqui apenas deixar palavras que possam funcionar como faúlhas para acender a vontade de conhecer essa lendária Corte passada num passado da Serra de Sintra, e na qual Francisco Rodrigues Lobo nos deixou uma das maiores verdades:

    cortesia e falar bem, custa pouco e vale muito

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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