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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2016 ~

Afonso VI e os
Porquinhos de Negrais

Afonso VI e os Porquinhos de Negrais
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 06 de Maio de 2016

    Não, não se trata de uma lenda. A razão? Se tem acompanhado as minhas publicações mensais aqui no Jornal de Sintra, certamente terá reparado na secção em que são inscritas: Lendas e Factos Lendários de Sintra. Poderá existir até quem ache estranho as coisas que tenho contado. Quem as considere estranhas fazendo parte da história, de uma história de Portugal que tão pouco se conhece. É precisamente aí que quero centrar a sua atenção hoje.

    Tenho escrito sempre sobre personagens que se relacionam directamente com a história de Sintra e cujas vivências se destacam em traços e em percursos de vida que não possuem a mesma intensidade que uma qualquer coisa na rotina de alguém possui. São histórias que engrandecem essas vivências do passado e fazem com que as pessoas inevitavelmente delas queiram falar – e aqui, tão pouco à português, que seja inevitável delas falarem por serem coisas boas.

Preparação da partida de D. Catarina – irmã do Rei – para Inglaterra para se casar com o Rei Charles II; Afonso VI aparece representado no centro da carruagem

Afonso VI e os Porquinhos de Negrais - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sin

    Estando essas personagens intimamente ligadas a Sintra ou as suas histórias aqui nesta terra se passando, faz com que o falar acerca delas, de suas histórias, tanto engrandeça o seu nome como o nome de Sintra.

    Mas se acha que a história não tem capacidade de conseguir surpreender os outros por ser apenas um conjunto de factos, números e datas, é porque ainda não conhece a extensão da sua riqueza que, quando condensada e “empacotada”, pode realmente resumir-se a apenas isso. Mas a história é muito mais, assim como a vida também o é.

    Escolhi este título pois reflecte bem a diferença entre duas vertentes das lendas que têm uma só origem: a crença de que a lenda é apenas fantasia muitas vezes tendo um fundo de verdade. O que é certo é que quando se olha para as lendas se poderá apenas ver o seu lado de invenção, de ficção, ou se poderá ver o seu lado de influências e de mentira. E se pensar que é tudo o mesmo: não o é.

    Uma das lendas de Negrais fala de um rapaz cuja mãe lhe pediu para levar uma porca a passear; depois de entrarem por um lado de um túnel quando saíram do outro – um bom bocado à frente, já em Oulelas – já tinha aquela ficado prenhe e já havia concebido uma série de porquinhos. Nesta lenda falta-nos hoje a contextualização social e cultural da época, e da época na localidade, apesar de conseguirmos de imediato fazer algumas associações que são praticamente explícitas. Aliás, não é preciso muito para se perceber que nos chegaram apenas fiapos da lenda original.

Afonso VI e os Porquinhos de Negrais - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sin

Gravura póstuma do Rei D. Afonso VI (século XVIII)

    De D. Afonso VI… Para quem não saiba, foi Rei de Portugal e viveu no século XVII, quando o vestir estava cheio de folhos, nas cabeças começavam a ser usadas perucas e na Europa começava a padronizar-se o uso e maneiras de faca e garfo. O Rei D. Afonso VI tem uma panóplia infindável de histórias retorcidas, dentro da sua própria história. De histórias que não se esperam de um Rei, de histórias cujo comportamento não seguia o esperado. De desilusões, ímpetos, acessos de fúria e traições que ora o levavam a correr na direcção de alguém desembainhando a espada aos gritos, ora a ser encurralado pelos seus próprios mosqueteiros.

    Com alguém tão imprevisível era natural que se delineasse claramente uma facção apoiante e uma facção oposta. E foi com essas duas, ora influenciadas ora estando predispostas a mentir – termos que anteriormente utilizei para falar da realidade na lenda – que surgiram as mais diversas e quase inenarráveis histórias sobre o Rei D. Afonso VI, e que levaram ao seu tão conhecido aprisionamento no Palácio da Vila. E aqui, conhecendo em extensão a sua história, é impossível não reconhecer que a realidade esfrangalha a ficção, mostrando-a até débil e decrépita.

Quadro de quando Afonso VI teria cerca de 10 anos de idade, por Dirk Stoop; ao fundo, o torreão do Terreiro do Paço onde o Rei também esteve cativo; ao centro, muito possivelmente já a Fonte Nova (encimada por uma estátua de Apolo em mármore) que Francisco Manuel de Melo também utilizou para no século XVII nos legar uma lenda de Sintra

Afonso VI e os Porquinhos de Negrais - Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra - Jornal de Sin

    A grande história faz-se por aqueles que têm um imaginário que leva os homens ao sonho; os grandes países são feitos de pensamentos e sonhos que cimentam as grandes obras. Isso, mais do que ter os seus homens a saberem apenas datas de cor.

 

    E já agora, e a título de irónica bizarria para a situação em que nos encontramos, de cor como no francês par coeur, no inglês know by heart, e tendo todas elas a origem no latim cordis, significando do coração, visto na antiguidade clássica acreditar-se que no coração estava guardada tanto a inteligência como a sabedoria. Isto é, saber de coração, coisa que quando os homens são mecanizados para terem tudo apenas fixado na mente não conseguem sentir essas mesmas coisas que os poderiam levar a novos sonhos para o país. Estéril receita que produz áridas mentes e corações vazios de sonhos.

 

    Ter as coisas mecanizadas pode ajudar na sua segurança a animar a malta, mas não é isso que vai fazer as revoluções que procuram a liberdade de pensamento para levarem novos mundos ao Mundo.

 

    Já agora aproveito para lhe deixar o convite para a palestra que darei no próximo dia 21 de Maio na Casa do Fauno, em que falarei sobre as lendas de Sintra, quer no seu contar, quer no seu surgir, muito à imagem do que hoje aqui tentei explanar. E no próximo mês aqui estarei, com um túnel de Negrais, com as intempestivas histórias de Afonso VI, ou com outra personagem ou lugar que faça parte da história de Sintra, a engrandeça, e que insufle o ar do sonho no coração de quem a ama através da estranha vida que por nós é vivida, e que por outros do passado assim também o foi.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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