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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2017 ~

A Serra de Sintra
e os Lobos

A Serra de Sintra e os Lobos
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 25 de Agosto de 2017

    Primeiro de Maio corre o lobo e o veado, era um dito português antigo, anterior ao século XVIII. Se os lobos no passado apresentavam uma ameaça sempre presente, sobretudo para o homem que estava mais em contacto com a terra, hoje em dia a sua imagem representa uma espécie ameaçada para o homem da ciência.

    Mas não só. Como no antigo dito que mostrava o despertar dos instintos animais pelas florestas e bosques do Reino de Portugal, a imagem do lobo desperta em muitas pessoas as emoções que se consumam simbolicamente naquele e com espírito o qual pretendem singrar entre os seus pares ou entre os seus rivais na sociedade. A ideia ou conceito do seu selvagem, o desejo de resistir a tudo como esses resistiam solitários entre si, a resistência e resiliência às passagens dos Invernos, dos ardentes Verões, nos mais agrestes sítios, nas mais incómodas e pedregosas colinas, nas mais frias planícies, leva a que muitos entre nós sintam o espírito do lobo como uma força que advém da imagem do passado.

Um lobo que morde a própria pata por ter pisado um galho e assim se ter denunciado na noite (como imagem para a mulher que se entregando por completo, cai no erro de assim o denunciar). Do Bestiário do Amor (Oxford, Bodleian Library), de Richard de Fournival, primeiros anos de 1300

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    Se as crenças da crueldade dos lobos eram transmitidas cá em Portugal durante o Renascimento com exemplos de além-mar em que os lobos eram capazes de dizimar três homens de uma vez, ou que na Antiguidade Clássica os pastores no mês de Abril faziam fogueiras nos campos dançando em volta dessas, imaginando, simulando, que estavam a afugentar lobos, existia quem nos anos de 1500, ainda assim, preferisse a solidão da Serra de Sintra à agitação e festas que se davam no Paço Real de Sintra, no Palácio da Vila. A solidão da Serra era diferente daquela que hoje se pode conhecer. Uma árida solidão corria os seus cumes onde as grandes rochas que formam os topos das montanhas se encontravam então a descoberto. Os sombrios vales cimeiros eram parcamente manchados de verdes copas, que entre si eram percorridas por javalis, raposas, veados (incluindo vários veados brancos, segundo relatos acreditados do passado), e lobos. Bastantes lobos.

    Se subir a Serra pode nos dias de hoje ser muito custoso, imagine-se naqueles tempos, em que os caminhos para o seu topo e os caminhos do seu topo eram inexistentes, existindo apenas aqui e ali trilhos que eram percorridos por cabreiros e pastores. Até mesmo o sentir do que se carregava no corpo era incómodo. À beira de entrar na época do iluminismo, além das meias que recobriam as pernas, das camisas cheias de folhos e mais folhos, dos sapatos de salto que deslizavam e escorregavam sobre lajes e pisavam pequeníssimas pedras como moendo os pés daquele que os calçava, mesmo que subindo em mula até ao Mosteiro da Pena, a meio dessa tudo se podia tornar ainda mais incómodo, como no caso de um viajante inglês que refere que a meio da subida começou a apanhar um nevoeiro que era tão húmido que a sua peruca ficou ensopada ao ponto de parecer a cauda de uma ratazana.


 

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Um cabreiro à direita na gravura que destaca em seu centro o Mosteiro da Pena (actual Palácio da Pena). Por António Correia Barreto, entre as décadas de 1830 e 1840, esboçada a partir de uma gravura de William Burnett

    E esses foram tempos em que, por exemplo, um inglês avistou na Serra uma alcateia de sete lobos. O homem da terra – principalmente – em muito temia o lobo, como encontramos em outro dito português de há muitos séculos atrás, que mostrava quão irrequietas as pessoas podiam ficar, e não só: lobo faminto não tem assento.

    Se os lobos deviam temer o acónito, planta de flor amarela que era conhecida como Mata Lobos, assim como uma espécie de urtiga que era no passado chamada de Tremoços de Cão, os perigos pelos quais passavam eram inúmeros. Se os cabreiros amentavam, chamavam, como por encantamento, os lobos para destruírem o gado de outros cabreiros que mal lhes queriam, era provavelmente a única forma como os usavam. De resto, fazia o homem uso da sua crueldade para com os lobos para se proteger, desde armadilhas com ferros em “z” (a crueldade era tal que descrever o processo seria estar a reavivá-la), outras utilizando covas e buracos, e alguns cabreiros e pastores em algumas partes do Reino de Portugal chegavam a criar armações para os focinhos dos seus cães, com representações terríveis como as de carrancas, mas igualmente com bicos para que assim os seus cães tentassem fazer frente aos lobos.

As montanhas de Sintra despidas da vegetação com que hoje a conhecemos. Por John Macphail, início da década de 1850

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    Em Sintra, existe um registo da década de 1870 que descreve minuciosamente como foi morto o “último lobo”. Novamente, é um registo crudelíssimo.

    Já na década de 20 do século XX dá-se uma batida a supostos lobos que andam a atacar o gado na Serra de Sintra. Em Lisboa a situação gera medo e alastra-se nos jornais. De tal forma que, por entre convocações de caçadores em multidões, se parodia com um filme que sairia nesse Verão, intitulado O Bicho da Serra de Sintra, e cujo enredo tratava de um rapaz que, para ver a sua namorada, entrava pela janela da casa dos pais daquela, vestido de bicho. Ainda assim as notícias sobre o lobo da Serra de Sintra chegam até aos jornais na Alemanha. E chegam-nos até aos dias de hoje eventuais resquícios disso mesmo através da tradição oral, como numa casa de São Pedro de Penaferrim em cuja fachada encontramos uma linha de azulejos onde se lê Cova da Onça.

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Um pastor na capela do Castelo dos Mouros (Capela de São Pedro de Canaferrim), antes das obras de intervenção promovidas pelo Rei D. Fernando II na década de 1840. Ao fundo vê-se – tendo névoa por baixo – o antigo Mosteiro da Pena. Por William Burnett na década de 1830

    Embora este episódio da década de 20 do século passado tenha durado vários dias e tenha atraído uma imensa atenção com o temor de uma incerteza de um passado reavivado, os lobos na Serra de Sintra representaram durante séculos um perigo muito grande para aqueles que viviam junto e na Serra em rústicas habitações, para aqueles que viviam no Mosteiro da Pena, no Convento dos Capuchos, no Mosteiro de Penha Longa ou no Convento do Carmo, e para aqueles que a esses, na esperança da cura espiritual cristã, acorriam.

O Bestiário de Aberdeen referia que para o caso de algum lobo alguma vez roubar a voz a um homem simplesmente ao olhá-lo nos olhos, a única forma de recuperá-la, de quebrar o encantamento, era o homem despir-se e bater com duas pedras uma na outra. Iluminura daquele que é conhecido como Bestiário de Rochester (Londres, British Library), elaborado entre os anos de 1230 e os anos de 1300

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    Existia também, quem com eles convivia como um seu par. É o que encontramos num registo do século XVIII, sobre um cabreiro que vivia na Serra de Sintra. Não sabemos o seu nome, mas é-nos descrito com um aspecto de selvagem, parecendo na sua enorme estrutura de corpo, um urso. Este cabreiro era conhecido pela sua habilidade em curar as pessoas. Certa vez foi chamado para tratar de um fidalgo que se havia despenhado de um lugar alto e se encontrava com muitas dores. Lá chegando o cabreiro tratou do fidalgo através de um processo descrito com minúcia – e em que os gritos excruciantes do fidalgo se fizeram bem ouvir com as manobras do cabreiro –, e deixando as indicações, as prescrições sobre o que aquele homem devia fazer nos dias seguintes, atraiu, pela sua brusca e decidida maneira de ser, a curiosidade e – diga-se – a atracção para o gozo, dos três ou quatro fidalgos que naquele quarto também estavam a assistir ao amigo enfermo. Meteram-lhe nas mãos umas moedas de ouro para pagamento e ele atirou-as ao chão dizendo que o pobre de Cristo que vivia da esmola do Rei – aludindo ao fidalgo enfermo – é que devia precisar delas; ele não saberia o que havia de fazer nem com essas moedas nem com a esmola que o Rei lhe desse. Quiseram emprestar-lhe um cavalo para regressar, mas recusou determinantemente; disse que fazê-lo, ir de cavalo para casa sem pôr o pé na terra, seria não ter respeito à montanha, e que assim Deus o castigaria mandando-lhe as enfermidades com que castigava os ricos – numa nova alusão depreciativa ao fidalgo enfermo. Por último, um fidalgo mais estouvado perguntou-lhe se na montanha existiam muitos lobos. Sim, mais que bons cristãos há em Lisboa.

    Este cabreiro, certamente que não tomava para si a imagem e o espírito do lobo para singrar na vida. Ele próprio já era de selvagem e solitária forma uma vitória do espírito humano sobre os seus instintos mais animais. Não conhecemos o seu nome mas se o conhecêssemos, certamente por não se deixar corromper causaria o temor de um lobo a muito bom nome que do passado se conhece e de que se faz valer quem o profere.       

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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