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ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL DE SINTRA
~ ANO 2021 ~

A Mandrágora de
Nicolau Chanterene

A Mandrágora de Nicolau Chanterene
por Miguel Boim - Jornal de Sintra, edição de 11 de Junho de 2021

    Sim, é verdade. O título pode ser enganador, particularmente para os mais desavisados do conteúdo destes artigos. Não é, no entanto, enganador no sentido de se passar ficções como verdades. O que pode ser aqui enganador é o que pelos nossos antepassados nos foi legado – embora, no caso que hoje vos trago, isso seja muito difícil de acontecer, e já irão perceber por que o digo. Fugindo à apagada normalidade, encontramos no passado a fantasia que ficou perdida por não ser tão “séria”, “séria” ao ponto de alguém a usar para “mostrar que sabe” – tornando-se assim mais importante a criatura que conta a História do que a própria História. É essa fantasia que consegue enfunar o peito das pessoas, que as consegue aproximar da História, que as consegue reaproximar da sua própria cultura.

 

    «...mas a minha fantasia, como vive à espera destes descansos para que logo desenvolva suas loucuras, tanto que sentiu ao entendimento divertido, à vontade dormindo, e à memória roncando, começou a formar nas apertadas ruas de minha cabeça uma máquina de figuras, tão próprias, tão vivas, e tão ordenadas, que mais pareciam obra de um discreto cuidado, que pintura de uma louca apreensão...» Estas palavras, pela pena de um desconhecido português de 1751, traduzem bem como nos podemos identificar com antepassados não “tão importantes”, e que são capazes de nos deliciar nos contornos da forma como viam a vida.

Uma mandrágora, numa versão do século IX do manuscrito Pseudo-Apuleius Herbarius

A Mandrágora de Nicolau Chanterene - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jor

    O que vos trago hoje não é de 1751, mas de cerca de 200 anos antes. Tínhamos então, cá em Portugal, desde a década de 1510, um escultor francês que era conhecido, entre outras formas, como Mestre Nicolau. Na década de 1530, João Rombo, que vivia em Lisboa (e curiosamente, na Freguesia de São Nicolau) trabalhou com Mestre Nicolau cá em Sintra. Muito possivelmente, em São Pedro de Sintra. Caso apenas aqui, em São Pedro, o Mestre tenha trabalhado, as peças para o Mosteiro da Pena (o mosteiro que existia onde encontramos hoje o Palácio da Pena), tinham de seguir depois pelo caminho que existia no lugar da Calçada da Pena, que sobe de São Pedro para o Palácio da Pena. Isso, com homens a fazê-las subir por estas colinas da Serra até ao Mosteiro. Por esses anos estava o Mestre a terminar o Retábulo da Pena, uma escultura belíssima em alabastro (um tipo de pedra que não tem opacidade total e que, com luz por detrás de partes mais finas, faz com que essas transpareçam a luminosidade), que constituiu ao longo dos séculos um tesouro da Pena. Ficando como exemplo o facto do Rei Filipe II de Espanha querer levá-lo para o seu Reino, quando nos encontrávamos a ser governados por Espanha.

 

    Essa época em que João Rombo e o Mestre Nicolau trabalharam juntos fez com que o primeiro ficasse com o seu nome e as suas palavras na nossa História. Se vos perguntasse como achavam que João Rombo ficou com o seu nome e suas palavras gravadas na História, que diriam? Através de um livro que tinha escrito? Pela forma como expus as palavras, seria certamente isso que iriam pensar. Mas não foi dessa maneira que ficou na nossa História em tinta marcado. Anos depois de terem trabalhado juntos – mas ainda na década de 1530 – João Rombo apareceu perante um oficial que lhe perguntou se ele tinha algo a dizer, se João Rombo tinha algo a relatar.

A Mandrágora de Nicolau Chanterene - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jor

Uma fotografia da folhagem e flores de uma mandrágora

    João Rombo confessou a esse oficial que por volta de 1532, quando ele era uma espécie de servente do Mestre em São Pedro de Cana Ferrym (actualmente, São Pedro de Penaferrim), mais especificamente, quando ambos estavam na leprosaria de São Pedro (que cobria uma larga parte aqui de São Pedro), o Mestre Nicolau lhe mostrou uma mandrágora, que seria tamanha como um palmo, pouco mais ou menos, e era figura de macho, com cabelos na barba e todas as outras partes que os homens têm... Rombo contou também que um pedreiro morador em Sintra, de nome João Luís, lhe contara que o Mestre lhe tinha certa vez mostrado também a tal mandrágora. Para além disso, Rombo contou igualmente que o Mestre lhe tinha dito que tinha uma bíblia pela qual lia, e que lhe dizia [a ele, Rombo] que eram muitas coisas da nossa fé e (...) eram lá dentro muitas coisas e muitas heresias...

 

    Mas que problema poderia existir em o Mestre Nicolau possuir uma mandrágora? Acreditava-se que quem tivesse a raiz de uma mandrágora e a guardasse de uma determinada maneira, que teria tudo aquilo que desejasse. Aliás, João Rombo refere que o Mestre Nicolau lhe dissera algo semelhante: ...e lhe dizia [a ele, Rombo] que depois que a tivera que percalçava [lucrava] quanto queria com ela (...) e a tinha muito guardada, metida em uma caixa, e estava metida em uma caixa pequena... Ou seja, o Mestre estava a fazer uso de um item mágico, além de ter uma “bíblia com muitas heresias dentro”. E João Rombo contara isto a um oficial. Mas o problema é que o contara a um oficial da Inquisição.

Uma mandrágora macho e uma mandrágora fêmea num manuscrito do século VII (De Materia Medica)

A Mandrágora de Nicolau Chanterene - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jor

    A Inquisição estava nos seus primeiros meses de funcionamento em Portugal, e nessa época as acusações eram muito fáceis de produzir efeitos, além de que existia a possibilidade de, caso a acusação se concretizasse, o acusador receber dinheiro. Ou seja, João Rombo podia receber dinheiro pela acusação. Ele, que igualmente confessou no processo da Inquisição que tinha sido o próprio Mestre Nicolau a ensinar-lhe o ofício de pedreiro. Esta foi a paga de João Rombo para com o Mestre.

 

    Esta crença relativa a esta raiz de mandrágora que cá por Sintra passou guardada numa caixa de madeira, não era exclusivamente portuguesa, era uma crença europeia. E o Mestre esforçara-se para a conseguir, apesar de ainda não estar como seria desejável: ...custava muito dinheiro e quem tinha macho e fêmea era grande coisa...

A Mandrágora de Nicolau Chanterene - Artigo de Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, no Jor

O Retábulo da Pena, esculpido por Nicolau de Chanterene, e ainda presente na parte daquilo que hoje é a Capela do Palácio da Pena (fotografia do final do século XIX/início do século XX)

    Raphael Bluteau, no seu dicionário do século XVIII, referia como as mandrágoras eram vistas nesse século: Erva. É de duas Espécies. Mandrágora fêmea, a que chamam negra, tem duas raízes, negras por fora e brancas por dentro, muito compridas e enlaçadas uma com outras (...) A outra espécie de mandrágora, a que chamam macho, tem raiz mais grossa que a primeira, lança folhas grandes, brancas, largas e listradas...

 

    Esta perseguição a possuidores de mandrágoras não tinha sido uma coisa trazida pela Inquisição, era algo que já aparecia nas Ordenações Manuelinas. As Ordenações eram conjuntos de leis que eram promulgadas, e no caso mencionado foram o conjunto de leis promulgado no reinado do Rei D. Manuel I, do início desses anos de 1500. Entre outras coisas, referia que: Outros têm mandrágoras em suas casas com intenção que tendo-as, por elas terão graças com senhores, ou ganharão nas coisas em que tratarem.

 

    Mas não era, contudo, fácil obter uma mandrágora. Existia um grande risco que se corria ao desenterrá-la da terra, e por isso era necessário ser-se engenhoso. Mas o nosso espaço aqui no artigo está a chegar ao fim, e irei deixar isso para o próximo livro, que deverá sair até  final deste ano, e onde poderão ficar fascinados com mais uns factos que aqui ficaram por escrever – e com muitos, muitos outros, com outras coisas de Sintra relacionadas.

 

    Deixo-vos por isso com a imagem de fantasia que a História consegue atingir, se a soubermos recolher para esse fim, se a quisermos aos outros expor de modo a tocar no seu coração, e assim trazê-los para mais próximo da sua própria História, da sua própria cultura, dos seus espaços que já tanta beleza têm. E História sem fim há aqui, nesta terra, por descobrir.

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por Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra

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